Ouvi dizer que a vida é boa rola em algum lugar no interior do Brasil onde uma menina humilde cresce preenchendo-se de uma enorme curiosidade sobre o que tem “lá”. Mas ela nunca vai “lá”. E onde é esse lá? Durante a infância, é um parque; na idade adulta, é o mar. Ouve dos outros o quanto “lá” é incrível, mas nunca chega o dia em que a menina, depois, mulher, chega a ir “lá”. A peça é um angustiante relato de uma vida inteira à espera da felicidade.
A peça surgiu em 2018 para comemorar os 24 anos de existência da Cia Dramática de Comédia e, desde sua estreia, em junho de 2018, na Arena do Espaço SESC Copacabana, vem cumprido temporadas com sucesso de público e crítica por onde passa, chegando agora, em 2020, ao palco do icônico Teatro Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ironicamente a uma quadra da praia.
A atriz Carol Machado conduz de maneira brilhante e segura o poético espetáculo, demonstrando um enorme amadurecimento como atriz. Atriz que, aliás, sempre demonstrou muito talento, desde um longínquo Confissões de adolescente mais de vinte anos atrás. Dividem o palco com ela, os atores Ana Moura, Cleiton Rasga, Flávia Fafiães, Giselda Mauler, Luciano Moreira e Thiago Herz fazendo o árduo trabalho de se revezarem como atores e músicos, ajudando a conduzir a vida dessa menina/mulher doce, ingênua, curiosa, que, pouco a pouco, meio que sem perceber, desperdiça a vida e as oportunidades ao se sentir sempre na obrigação de cumprir papéis familiares e sociais, nunca pensando em si mesma.
O tempo passa. A vida passa. Ela (a personagem não tem nome) engravida, tem filhos, e sempre encontra, ou encontram para ela, uma justificativa qualquer para nunca ir “lá”, sempre adiando, protelando. Já mais velha, morando no Rio de Janeiro, os filhos crescidos, ela simplesmente esquece de ver o mar, porque esquece de si mesma, porque passou a vida sabendo de tudo por ouvir dizer. A partir dessa premissa simples, o espetáculo desenvolve-se onde uma série de jogos teatrais e canções conduzem o público de maneira muito eficiente ao entendimento da narrativa. Não chega a se tratar de uma comédia, mas a busca por uma certa leveza no tom da construção das cenas leva a plateia às risadas em alguns momentos. Seu trunfo maior é de propor uma reflexão sobre a importância de um olhar atento, apurado, sobre o cotidiano. E, apesar de ser contado num tom bem-humorado, o espetáculo transmite uma angústia profunda.
A direção musical de Marcelo Alonso Neves leva os atores a executarem ao vivo as canções e assumir o papel de um coro que comenta a história com canções que tentam apaziguar a tristeza dela, mas o que fica no final é a melancolia daquela vida à espera de ser vivida, e de uma vida que foi vivida, mas que não foi feliz, que esteve sempre à espera, ou a serviço.
Com texto e direção de João Batista, e uma entrega absoluta e encantadora, em cena, do elenco, o espetáculo se comunica bem com o público, com plateias de diferentes idades, mas acredito que diga muito mais a quem já tem uma certa estrada. Ao abordar de forma simples, bem-humorada, mas sem subterfúgios, temas como a passagem do tempo ou o constante adiamento, às vezes necessário, às vezes não, de decisões e realizações de desejos, devido a questões e pressões do cotidiano, a montagem atinge em cheio quem já viveu essas “escolhas de Sofia” do dia-a-dia.
A trilha Sonora Original de Marcelo Alonso Neves é excelente e muito bem executada pelo elenco. As letras das músicas do próprio autor e diretor do espetáculo são eficientes e mantêm uma estrutura lúdica, o figurino de Mauro Leite parece bem adequado às passagens de tempo e à mudança de espaço, assim como o cenário de Doris Rollemberg também mostra a mesma eficiência. Já a iluminação de Renato Machado parece ter sido pensada para o Sesc Copacabana, um teatro em formato de arena e no qual a plateia assiste de cima, ficando um pouco prejudicada em um espaço diferente como o Teatro Ipanema, com uma estrutura típica de um palco italiano mais tradicional.
Ouvi dizer que a vida é boa. Teatro Ipanema – Rua Prudente de Morais, 824, Ipanema, Rio de Janeiro RJ.
De 18 de janeiro a 17 de fevereiro – sábados e segundas, às 20 horas, domingos, às 19 horas. Ingresso R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia) (bilheteria aberta de terça a domingo, das 15 às 21 horas, pagamento em dinheiro). Duração 60 minutos. Classificação etária 12 anos. Lotação do teatro 222 lugares.

Comentários
Uma resposta para “OUVI DIZER QUE A VIDA É BOA | A MELANCOLIA DA VIDA A SER VIVIDA”
[…] Nosso crítico, Edvard Vasconcelos, faz uma análise completa e muito elogiosa sobre o espetáculo. Para ler a crítica na íntegra, clique aqui […]