AUTO DE JOÃO DA CRUZ | UM SUASSUNA INÉDITO MAIS ATUAL QUE NUNCA

Comemorando seus dez anos de atividade, a Cia. OmondÉ monta um Suassuna inédito, sob a direção de Inez Viana: Auto de João da Cruz. Por inédito, entenda-se que o original da peça esteve fora de circulação por 60 anos e só foi incluído na obra em quatro volumes do Teatro Completo de Ariano Suassuna em 2018, organizada pela própria Companhia.

Por dez anos de atividade, entenda-se que sua fundação se deu em 2010, com a montagem de outro texto do autor, Conchambranças de Quaderna. Ou seja: é um pessoal que resgata textos clássicos, reverenciando o inventor do Teatro Nordestino, segundo avaliação do escritor Hermilo Borba Filho.

Toda vez que vejo uma nova montagem de Suassuna me lembro do teatro de bonecos da Idade Média, cujos personagens eram manipulados por cordões e viviam dando bastonadas um no outro, como na Commedia dell`Arte.

Muito já se disse sobre a obra de Ariano Suassuna, inclusive que copiava cordéis populares vendidos em feiras, mas vamos ser mais elegantes e dizer que o texto é uma recriação do Fausto, de Goethe, cuja trama traz elementos de três romances populares nordestinos – História de João da Cruz, História do Príncipe do Reino do Barro Branco e a Princesa do Reino do Vai-não-Torna e O Príncipe João Sem Medo e a Princesa da Ilha dos Diamantes — de Leandro Gomes de Barros, Severino Milanez da Silva e Francisco Sales Areda, respectivamente.

Ignorando solenemente essas maledicências, é lícito supor que Suassuna tenha absorvido tramas que estavam por aí, com o objetivo de verticalizar suas mensagens e construir uma dramaturgia autenticamente nordestina, com base nos enredos e personagens picarescos ibéricos, substrato de seu Movimento Armorial. Afinal, Shakespeare, de uma maneira ou outra, também fazia o mesmo.

A história é simples: inconformado com a ausência do pai e com a miséria em que vive, João decide sair de casa, deixando tudo para trás e partindo em busca de riquezas. Deus e o Diabo fazem, então, uma aposta pela alma do rapaz, que passa a ter tudo que deseja ao mesmo tempo que se distancia de sua própria humanidade, família e amigos.

João se transforma em um homem frio e perverso. Quando enfim recupera a consciência percebe que tudo que lhe importava já não mais existe. Ainda em vida, ele é sentenciado por seus atos no mesmo local onde os mortos são julgados.

A Cia. OsmondÉ é uma festa em cena. Todos – literalmente todos – os atores são excepcionais, profissionais com larga experiência no teatro, que se revezam em vários personagens, dando a esta montagem um colorido digno da obra de Suassuna. Seria uma maldade pinçar alguns, mas vou fazer esta maldade: Junior Dantas, Leonardo Brício e principalmente Zé Wendell (no papel título) se destacam dos demais em interpretações que superam as mais altas expectativas dramatúrgicas. Isso se dá mais em função do tipo de personagens que encarnam do que por serem melhor que os outros: não o são, há uma equivalência de qualidade em todo o elenco.

Zé Wendell, por exemplo, se transforma completamente (no corpo, na postura e na voz) quando passa de João da Cruz para João Sem Medo, depois de receber as dádivas infernais do Tinhoso. Sua caracterização é uma caricatura antológica de um ser que passa a possuir poderes de vida & morte, mas que claudica aqui e ali de acordo com as oscilações de sua consciência.

Enfim, um espetáculo total onde, além dos já mencionados, conta com um elenco de primeira: Elisa Barbosa, Iano Salomão, Luís Antônio Fortes, André Senna e Tati Lima, todos fortemente armados de paixão pelo teatro, e que transformam um texto com 70 anos de idade numa diatribe bastante peculiar e atual contra os desmandos de arrivistas de plantão.

A direção de Inez Viana é competente ao fazer as marcações corretas no sentido de respeitar o original, mas sem tolher-se. Inventa, reconstrói e improvisa uma releitura extremamente atualizada da trama.

 

Auto de João da Cruz. Teatro Firjan SESI, Centro –  Av. Graça Aranha, 1 – Centro, Rio de Janeiro.

16 de janeiro a 16 de fevereiro – quintas, sextas e sábados, às 19 horas; domingos, às 18 horas. Ingressos R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Ingresso online sympla.com.br. Duração 90 minutos.

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