Billdog 2

BILLDOG 2 | GUSTAVO RODRIGUES, UM PERFORMER GENIAL

Imaginem uma trama escrita por Raymond Chandler, adaptada por Sam Raimi e dirigida por Mel Brooks, com trilha sonora de Ray Cooder. Pois é mais ou menos assim que começa Billdog 2, a mais nova alucinação do ator Gustavo Rodrigues nos palcos cariocas, reeditando o personagem de 2012.

Misturando o universo pop das HQs com filmes B americanos, ele compõe um ensandecido espetáculo de sons e luzes que transborda talento e referências singulares em paródias corrosivas do gênero hard boiled da década de 30, tudo emoldurado por uma guitarra tocada ao vivo pelo estupendo Tauã de Lorena.

O clima é tão característico que dá para sentir o cheiro de bourbon barato exalando das sarjetas e o fog que sai dos bueiros pode ser cortado por uma navalha.

Neste solo onde Rodrigues interpreta nada menos que 46 personagens, tudo pode acontecer, desde achaques de assassinos profissionais nos credores de membros da Máfia até monstros que nascem do lixo tóxico e decapitam um casal de namorados na floresta mais próxima.

A ideia é tão genial que merece um olhar atento nas habilidades excêntricas do ator, que se desdobra no narrador, nos diversos componentes das cenas (homens, mulheres, crianças e até gatos), e nos múltiplos efeitos especiais bolados pelo iluminador Aurélio de Simoni, que constroem um cenário fictício apenas através de focos de luzes dirigidas ou feixes espalhados pelo palco, que ora ampliam, ora reduzem tudo a um ambiente intimista.

No meio da peça, Mel Brooks é substituído por Robert Rodrigues que amplia o horizonte para uma pulp fiction de dimensões rasgadas, descortinando enredos ainda não explorados pelo autor.

Numa das cenas mais espetaculares da peça, Billdog toma um remédio tarja preta receitado pelo seu psiquiatra (!) e que tem inúmeros efeitos colaterais. No meio da noite, flagra-se na cama tendo alucinações ao sussurrar uma música de Jim Morrison. À direita, desce do teto uma guitarra, que ele empunha sem saber direito o que está acontecendo. Esse delírio alucinógeno tem uma continuidade surpreendente: entra um baterista de rock pesado e uma música engata em outra e mais outra; rolam Jumpin´ Jack Flash, dos Stones, e Purple Haze, de Hendrix, soladas e cantadas pelo próprio Gustavo Rodrigues.

Na verdade, o texto e a concepção de Billdog 2 é do inglês Joe Bone; a direção de Gustavo Rodrigues e do próprio Bone; a supervisão artística de Guilherme Leme Garcia, mas é na preparação corporal de Brisa Caleri que está um dos grandes diferenciais desta peça. Os movimentos e postura do ator são de uma perfeição de arrepiar, alçando-o desde já à categoria dos maiores performers de teatro da atualidade.

Outra qualidade inegável de Billdog 2 está na dicção extremamente peculiar que Gustavo imprime ao caracterizar a fala dos 46 personagens da trama. O acento é de tal forma anedótico que nos dá a impressão de que as vozes provêm de dubladores de filmes em preto & branco das madrugadas de TV dos anos 50. Da Herbert Richers, mais precisamente.

A história da gênese deste espetáculo é boa e merece ser contada. Numa temporada de estudos em Londres, em janeiro de 2011, Gustavo Rodrigues tentou assistir a Throsts, de Gerald Thomas, mas, como estava lotado, recomendaram a ele Billdog (título original, Bane), que tinha estourado no Festival de Edimburgo. Foi ao Covent Garden, mas também já estava lotado. Esperou uma desistência e conseguiu. Assistiu e foi impactado pela originalidade do espetáculo, que, segundo ele, tinha uma pegada do Dario Fo, só que underground, com muita inspiração em Tarantino e no cinema noir. Encontrou-se com Joe Bone e propôs a ele montar Billdog no Brasil e conseguiu os direitos autorais. Em 2012, estreou o espetáculo. Neste ano, fez a continuação, retomando o personagem.

A referência a Dario Fo não é gratuita: há muita mímica em Billdog 2, a composição dos personagens se vale de artifícios da pantomima clássica e as cacofonias que imitam sons de objetos (revólveres sendo engatilhados, isqueiros, secretárias eletrônicas, guinchar de portas, passos na escada) devem muito ao método do italiano que revolucionou a arte do teatro ao longo dos últimos setenta anos e que faleceu recentemente (em 2016), depois de receber o prêmio Nobel de literatura.

É importante frisar que Billdog 2 não é um espetáculo exclusivo aos aficionados pela cultura pop, é uma peça de teatro autêntica & genuína que arrebanha múltiplos públicos e agrada mesmo aos que não têm referência alguma nesses elementos heterogêneos que compõem sua trama.

A atuação de Gustavo Rodrigues é digna de prêmios, pois encanta pela simplicidade e impacta por sua inegável qualidade artística. É uma espécie de showman às avessas, um abnegado outsider que acredita na magia da palavra e na criatividade da arte de representar.

 

Billdog 2. CCBB Centro Cultural Banco do Brasil – Rua Primeiro de Março, 66 – Centro – Rio de Janeiro/RJ.

3 de janeiro a 1 de março – quarta a domingo, às 19h30. Ingressos R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia). Bilheteria no local, aberta de quarta a segunda, das 9 às 21 horas. Ingresso on line eventim.com.br  Classificação etária 18 anos. Duração 65 minutos. Capacidade 86 lugares.

 

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