O MARIDO DE DANIEL | O DILEMA DO CASAMENTO GAY

O Marido de Daniel
Divulgação

Enganam-se os casais gays que acham que o tempo de união gera a estabilidade conjugal capaz de resolver toda querela jurídica no caso de algum problema proveniente de doença e que prive um dos amantes de providenciar a tempo um termo de responsabilidade ao companheiro. O coma é um exemplo, assim como qualquer outro tipo de paralisia que impeça a justiça de saber quais seriam os desígnios do paciente.

Esse é o tema de O Marido de Daniel, uma comédia de costumes de nossa época que analisa corajosamente os problemas da comunidade gay frente à rigidez de leis arcaicas e arbitrárias ainda presas a um patriarcalismo conservador que privilegia a família hétero tradicional em detrimento de novos tipos de uniões.

A história é a seguinte: Daniel (Ciro Sales) e Murilo (Bruno Cabrerizo) formam um casal aparentemente perfeito. Moram num apartamento maneiro onde recebem os amigos, basicamente o agente literário Bartô (Alexandre Lino) e o jovem Fred (José Pedro Peter). Bebem, fazem jogos de salão divertidos, trocam informações sobre política & arte, até que ocorre uma desgraça: em virtude de um aneurisma, Daniel fica hemiplégico, impossibilitado de se locomover e se comunicar, numa (assim chamada) síndrome do encarceramento. Não fala, não se mexe, o que compromete demonstrar suas escolhas. Precisa de cuidados de um especialista o tempo todo. O companheiro de desdobra, mas tem seus limites de tempo, pois precisa alimentar sua carreira de escritor de livros de ajuda gay, indo a lançamentos, debates, fóruns.

A atriz Dedina Bernadelli interpreta a mãe de Daniel, que torce pelo casamento dos dois. Milionária, viúva e, apesar da mente aberta, no auge da angústia, pede na justiça a guarda do filho, pois, segundo suas deduções, teria mais condições financeiras de cuidar dele na sua casa, onde ela adaptaria os aposentos com essa finalidade.

Instala-se o conflito entre dois tipos de amor: o da mãe desesperada e o de Murilo, que até aquele momento tinha desdenhado do casamento (intenção presente na discussão com Daniel, que sempre foi a favor) através de argumentos progressistas: não queria dar o braço a torcer a uma sociedade reacionária que os aceitaria apenas com a união legal, mimetizando os casais héteros mimosos & cordatos que se sujeitam a leis hipócritas e decadentes.

Resultado: Murilo perde a causa no tribunal e a peça termina com a transferência do amado para a casa da mãe, mas promete duas coisas: vai fiscalizar o tempo todo as acomodações e a situação de Daniel e, quando ele sarar, os dois se casarão com pompa e circunstância numa cerimônia de arromba.

O texto do americano Michael McKeever é duro, seco, abrangente e consegue driblar na maior competência qualquer tipo de melodrama que possa se imiscuir na narrativa. Para isso, a peça contou com a brilhante direção de Gilberto Gawronski, que fez as marcações precisas de cada ator em cenas que primam pelo duelo de ideias. Os dois lados têm razão, cada qual de acordo com suas concepções de vida e opções diante do infortúnio e o ponto alto está no equilíbrio de atuações.

Em cena, Dedina Bernadelli é uma leoa que luta pela felicidade do filho, em contraponto com Bruno Cabrerizo que faz o mesmo, mas valendo-se de outras armas. A retórica chega ao auge quando a plateia percebe que está diante de uma questão sem solução. Um dilema de proporções assustadoras.

É uma pena, contudo, que o autor não tenha conseguido um final menos submisso às leis vigentes, mas também é possível deduzir que Murilo tenha dado um passo atrás, provavelmente para tomar mais impulso, como fazem os tigres quando pretendem encurralar a presa com mais êxito.

“O marido de Daniel” está em cartaz no Teatro Petra Gold (Leblon), até 9 de abril, às quintas-feiras, às 20h.

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