UMA RELAÇÃO TÃO DELICADA | LÁGRIMAS GARANTIDAS

A rigor, o que pode dar errado numa peça de teatro dirigida por Ary Coslov, iluminada por Aurélio de Simoni e interpretada pela excelente Letícia Isnard e uma bastante motivada Rita Guedes? Resposta: o texto.

Imaginem uma vasta coleção de clichês e chavões que contemplem o relacionamento entre mãe e filha e acompanhem essa vivência durante décadas.

O que é o melodrama? O melodrama é um recurso literário largamente empregado nos folhetins do século XIX para que o leitor (ou espectador, no caso do teatro) se emocione diante de situações estereotipadas. É uma espécie de panfleto existencial, um reducionismo semântico que aposta nas emoções mais primitivas do ser humano. Não à toa é usado à exaustão até hoje nos enredos rocambolescos das telenovelas.

E, quando digo folhetim, não me refiro especificamente às tramas baratas de Xavier de Montepin ou Engène Sue, mas também aos romances de Charles Dickens, Thomas Hardy e até Victor Hugo, que não negligenciaram esse recurso em seus romances. Mas há uma atenuante: naquela época, a literatura estava apenas engatinhando.

Portanto, é possível admitir que o melodrama é um artifício reacionário justamente por não vislumbrar as alterações no comportamento social numa sociedade em constante mutação.

Mas o fato é que essas mudanças não param de acontecer. É inegável que, a partir da década de 60 do século XX, muita coisa foi repensada, inclusive o relacionamento entre os membros de uma família.

A menos que acreditemos no cânone de que ser mãe é padecer no paraíso. Ou seja, a mãe é aquele ser sublime que sofre, mas que vale a pena, pois está gerando um fruto no qual deposita todas as esperanças.

Escrito na década de 1970, o texto da francesa Loleh Bellon não é inédito no Brasil, De Si Tendre Liens foi adaptado para os palcos em 1989, com Irene Ravache e Regina Braga nos papéis de mãe e filha.

É difícil dizer se esse texto impacta realmente a sensibilidade das plateias mais exigentes quanto à realização de uma obra de arte, pois a vida (em toda a sua extensão temporal) impõe-se de maneira absoluta, e seria leviano afirmar que não haja identificação com as personagens.

Nesse sentido, Uma Relação Tão Delicada cumpre a sua função de emocionar às lágrimas mães e filhas que passaram pelas mesmas experiências de conflito: a culpa, a idealização, o abandono, a autoridade materna, a dependência emocional, o medo infantil, a solidão, a vivência afetiva.

Competente como sempre, o diretor Ary Coslov não questionou o texto, serviu-se dele e fez o que tinha de fazer: concebeu marcações exatas; soube administrar com mão de mestre as várias mudanças de tempo entre os episódios e (o melhor de tudo) conseguiu que a delicadeza do título da peça fizesse parte de seu arsenal de artifícios: toda cena tem sua individualidade e o afeto transborda de cada ato das atrizes.

Aurélio de Simoni deixa momentaneamente sua discrição de lado e se aventura numa iluminação mais feérica: foco azuis e vermelhos e lâmpadas verdes abarcam toda uma concepção diferenciada, criando os climas pertinentes que sublinham a trama.

Letícia Isnard dá seu show particular: consegue usar sua habitual usina de energia tanto nos momentos elétricos que configuram a infância de uma menina que se sente negligenciada pela mãe, quanto na adolescência e, finalmente, na maturidade, quando também se transforma em mãe.

A idealizadora do projeto e adaptadora do texto Rita Guedes sustenta bem seu papel, particularmente nos vinte minutos finais da peça (sem dúvida os mais empáticos) onde engrena sua camaleônica e paulatina transformação de mulher madura rumo à decadência física e mental de uma velha.

O texto, contudo, deixa claro que as situações da infância se repetem na maturidade com a inevitável troca de papéis, elas perdem a exclusividade, interagem ao longo da história, transmutam-se, trocam suas peles. E é isso que incomoda: temos a impressão de que nada vai mudar pois a situação não admite um novo olhar. É assim, foi assim e será sempre assim enquanto a Humanidade subsistir, o que talvez seja um erro ou (ao menos) uma meia verdade.

Para o que se propôs, a história de Loleh Bellon tem um aspecto funcional claro, mas é sempre bom termos em mente que a literatura e a dramaturgia já não estão mais na fase primitiva de apenas retratar a realidade, mas modificá-la, por mais difícil que esse trajeto seja. É isso que se exige de um autor.

Não há inevitabilidades na vida. Tudo pode acontecer. E o teatro é o lugar ideal para receber essas experiências, mesmo que a maternidade tenha esse viés ancestral de repetição de clichês perenes.

Que ninguém se intimide, porém, com as esquisitices do crítico, Uma Relação Tão Delicada é um espetáculo que merece ser visto por todos. Tem méritos para isso e uma equipe de primeira linha.

 

 

Uma relação tão delicada está no Teatro Vannucci (Shopping da Gávea), de 10 de janeiro a 22de março, de sexta a domingo.

 

Link para maiores informações http://br1018.teste.website/~teatro65/2020/01/03/uma-relacao-tao-delicada/[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row]