Dizem os entendidos que os homens já não têm mais direito à tragédia, pois ela surge da confluência da ação divina e da ação civil. Segundo os gregos, a tragédia só acontece quando os deuses se metem na vida dos mortais. Como todos perderam a fé, só lhes sobrou um drama sem a opulência da grandiosidade clássica.
Fazendo tábula rasa dessa tese, a Definitiva Cia. de Teatro montou O Som e a Fúria – Um Estudo sobre o Trágico. Que começa a todo vapor com um monólogo convulso e assustador da atriz Tamires Nascimento, num momento de rara inspiração. O texto é difícil, apaixonado, feérico, contundente, e dá voz a uma mãe que perdeu o filho com toda certeza abatido (e talvez esquartejado) pela polícia em mais um desses confrontos de rua, onde os de cima tripudiam e esmagam os de baixo, como dizia Brecht. Na busca do corpo, ela se depara com a inércia das instituições, a negligência dos responsáveis e a ironia de PMs que afirmam não terem tempo para resolver picuinhas. Desesperada, ela se descabela ao sentir na carne a impotência a que está submetida sob o tacão de uma sociedade montada na desigualdade social e na crueldade de quem deveria zelar pela nossa segurança.
No entanto, se começa bem, não se pode dizer o mesmo de sua continuação, pois, apesar de a peça ser forte e feroz em sua mensagem, a dramaturgia debruçou-se num mosaico excessivamente amplo de temas, incluindo a homofobia, a matança de negros e pobres, a eliminação de trans, assédio sexual, enquadramento de professores por pais moralistas, o desmatamento, garimpeiros invadindo terras indígenas etc.. Com isso, perde a oportunidade de verticalizar a reflexão e aprofundar-se mais sobre cada um.
Intuindo que já passou da hora de enfrentarmos de igual para igual esses desmandos e agressões, com o tempo, ela perde o foco, claudicando aqui & ali em sua denúncia justamente pela dificuldade de costurar zilhões de eventos com eficiência. O ritmo fica prejudicado e corre o risco de desviar a atenção do público para a instância seguinte, quando a anterior ainda estava sendo construída.
Outro problema do texto (que, na verdade, é uma sucessão de esquetes monologados) é o didatismo, que se torna (apesar de continuar eloquente) um pouco redundante no andar da carruagem. Do meio para frente, O Som e a Fúria torna-se uma crônica do cotidiano, com citações de frases emblemáticas de políticos e manchetes dos jornais diários, nada que a gente não saiba.
Mas há uma atenuante nisso tudo: segundo a dramaturga Rosyane Trotta, o espetáculo é mais um processo que uma obra definitiva e acabada. Uma prova disso é que deixa à mostra parte de seus alicerces.
Apesar de patinar no miolo, a peça retoma sua força no furioso discurso final, só que de maneira diferente: engrena um metateatro pra lá de alucinado, desta vez sob a batuta da atriz Paula Sholl. Seu nervoso monólogo é entremeado por diálogos com o iluminador, o contrarregra e o diretor musical, pedindo para que eles a ajudem no sentido de sublinhar suas falas. É inacreditável o que a atriz consegue com esse artifício. Ao mimetizar as atitudes de um hipotético diretor de cena, ela pode estar sugerindo que o nosso cotidiano também poderia ser administrado pelo povo, desde que tivesse alforria para tanto. Ela pede compreensão. Pede entendimento. Ela pede cognição. Mas ela pleiteia acima de tudo poder. E, como se sabe, o poder não se barganha, se conquista.
Como se não bastasse, a Definitiva Cia. de Teatro ainda bolou uma trilha sonora assinada por Renato Frazão que dialoga passo a passo com a dramaturgia e se baseia em cantos indígenas, como o Teirú, e músicas compostas diretamente para a cena, caso do Mandú Çarará, a partir de mote utilizado por Villa-Lobos.
Com direção firme de Jefferson Almeida, que instiga o elenco a fazer o diabo com as cadeiras, e uma iluminação extremamente coerente de Luiz Paulo Barreto, além das duas atrizes já citadas, O Som e a Fúria ainda conta com os seguintes atores: Betho Guedes, João Vitor Novaes, Livs Ataíde e Marcelo de Paula, que se entregam de corpo & alma a deixar claro que o lema do país deveria ser outro: a estupidez e a truculência acima de tudo.
O Som e a Fúria. Centro Cultural Oi Futuro – R. Dois de Dezembro, 52 – Flamengo, Rio de Janeiro, RJ – Tel. (21) 3131-3060.
16 de janeiro a 22 de março – quintas a domingos, às 20 horas. Ingressos R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia). Classificação etária 16 anos. Bilheteria: de terça a domingo, das 14 às 20 horas. Para ingressos sem sair de casa, consulte online o site ticketplanet.com.br. Capacidade 63 lugares. Duração 95 minutos.
