Desde que os jurados dos prêmios anuais de teatro estejam em plena posse de suas faculdades mentais e não resolvam criar casuísmos para beneficiar os amigos ou as figurinhas carimbadas de sempre, dificilmente 3 Maneiras de Tocar no Assunto não será escolhida como melhor texto, melhor ator e melhor direção.
É provável que Leonardo Netto (autor e intérprete) não tenha consciência disso, mas sua peça não é apenas fundamental para se entender a homofobia, como também fundacional no sentido de estabelecer parâmetros de qualidade definitivos para se encenar um monólogo indignado contra a intolerância e a crueldade, uma espécie de aula sobre como se deve fazer um espetáculo sem cair no melodrama ou na autocomiseração, distribuindo todas informações necessárias para a apreciação do tema.
Dividido em três partes, a peça se desenrola pouco a pouco, como se um mestre de cerimônias indicasse à plateia caminhos ao entendimento das causas e consequências da crueza de uma realidade que se supunha até certo ponto resolvida (e até ultrapassada), mas que, em virtude da reviravolta dos tempos atuais, ela ressurgiu de forma ainda mais enérgica.
O texto é forte, o intérprete, vigoroso, e o diretor (Fabiano de Freitas) sublinha cada cena com sua habitual atenção de um profissional antenado na ação. Grava com ferro em brasa na testa do público toda frase dita e meneia os movimentos do ator com a cadência de um demiurgo celeste, imprimindo ao espetáculo um ritmo alucinante.
O Homem de Uniforme Escolar (o primeiro segmento) é uma palestra paródica onde Leonardo enumera e especifica o bullying nas instituições de ensino de todo o país e do mundo (independente das épocas), buscando uma resposta para entender por que tais crueldades são perpetradas impunemente contra os alunos considerados diferentes. Ou gordos ou magros ou de óculos ou baixos ou altos demais ou os portadores de acnes no rosto e principalmente os que são gays ou que parecem gays ou que alguém resolveu simplesmente taxá-los de gays e assim caminha a Humanidade.
O Homem com a Pedra na Mão (o segundo segmento) muda o enfoque falsamente didático para enveredar por caminhos mais perigosos: Leonardo encarna um dos gays responsáveis pela famosa batalha de Stonewall Inn, o bar onde a turma se reunia em São Francisco, e que era periodicamente intimidada pela polícia.
Talvez nem todos saibam que, nos Estados Unidos de 1969, ser homossexual era crime; eles eram perseguidos e presos, e viviam na clandestinidade dos bares; Stonewall Inn era um bar no Village de Nova York controlado pela Máfia e frequentado por drags queens, atores de teatro, gente de galerias de arte. Latinos, negros e brancos todos misturados, levantando a mesma bandeira. Nesse ano, houve uma batida policial no final de semana, em plena madrugada, de comum acordo com a própria Máfia, e levaram os que estavam vestidos de mulher. Havia uma regra hilária: para que você não fosse considerado travesti, tinha que estar usando pelo menos três peças de roupa do seu próprio sexo, as meias não contavam.
A truculência se repetia a cada semana até que um dia, instigados pelos drags e as lésbicas, que tomaram a linha de frente, os gays se revoltaram e rodaram a baiana. Foi a primeira vez que a comunidade reagiu à opressão policial. Quebraram tudo: o bar, as vidraças, deram garrafadas, encurralaram os meganhas e distribuíram porradas a torto e a direito, expulsando-os sem direito a piedade. Isso foi em 28 de junho de 1969, considerado até hoje como um marco das liberdades civis no mundo, data que se comemora O Dia do Orgulho Gay.
A narração do ator é vertiginosa. É possível ver (literalmente) centenas de pessoas enfurecidas enfrentando a polícia de igual para igual como uma massa compacta de insurrectos numa batalha campal, os gritos, o sangue, os coturnos marchando e se enfileirando nas ruas, as baixas de ambos os lados, uma guerra de ideais contra a força do Estado.
O Homem no Congresso Nacional (o terceiro segmento) é um patchwork de vários discursos do Jean Wyllys, trabalhados dramaturgicamente no sentido de construir um depoimento que é falado da tribuna do Congresso pelo personagem, que se sente perseguido por seus companheiros de ofício. Ou seja, faz a interação com o primeiro segmento, numa continuidade do bullying escolar até o ambiente de trabalho.
Como 3 Maneiras de Tocar no Assunto faz a interação entre esses três solos? Através de vídeos e fotos com referências sobre o tema em diversas fases históricas, sem contar a postura ideológica que os une em gênero, número & grau.
Além de ser um poderoso libelo contra a estupidez humana, 3 Maneiras de Tocar no Assunto ainda traz uma pertinente (e curiosa) reflexão semântica que não deve ter ocorrido a ninguém: o oposto de intolerância não pode ser tolerância. Para que consigamos nos livrar dos dogmas impiedosos e implacáveis que norteiam a sociedade, não podemos apenas tolerar, pois o sentido dessa palavra é inequívoco: condescender, suportar, contemporizar. Portanto, o antônimo de intolerância deve ser a aceitação pura das diferenças entre os seres humanos em seus mais variados graus & calibres.
No final dos três solos, há uma comovente antologia fotográfica de gays espancados, torturados, humilhados e ofendidos nas mais variadas épocas do mundo, no Brasil e fora dele, tanto em regimes democráticos como em estados de exceção, o que traz um amargor na boca e na consciência de qualquer um que guarde o mínimo de sensibilidade nas entranhas.
Agora, uma provocação a Leonardo, à direção e à produção do espetáculo: e se o segundo segmento finalizasse a peça, invertendo-o com o terceiro? A sequência, portanto, seria 1,3 e 2.
Explico: o segundo segmento, sem dúvida o melhor trabalhado em termos dramatúrgicos, vai num crescendo desconcertante. O personagem conta a cronologia desde o surgimento do contato gay (proibido em público) em fétidos caminhões que transportavam carne para os açougues e que, à noite, eram esvaziados e encostados num local ermo, até o levante propriamente dito no bar.
É impactante a desforra dos gays, a indignação levada às últimas consequências e a (mesmo que parcial) vitória final. O espetáculo terminaria com a possibilidade de mudança ou pelo menos com a ilusão dela, como diz o personagem fictício de Leonardo, sussurrando candidamente: Conseguimos. Também não haveria euforia, mesmo porque Leonardo repete e acrescenta: Sim. Conseguimos, mas vamos pagar caro por isso.
3 Maneiras de Tocar no Assunto está no Teatro Poeirinha, rua São João Batista, 104, Botafogo. Até 22 de dezembro. De quinta a sábado, 21 h, domingo, 19 h. Duração: 80 mim. Classificação: 14 anos.
