Iago, com Marcio Nscimento

IAGO | UM SHAKESPEARE MANIPULADO

Otelo era um sujeito estranho. Em vez de passear de gôndola à luz do luar pelos canais de Veneza, o cara ficava se remoendo em quartinhos escuros e tristes, destilando litros e litros de bílis. Se estivesse em plenas posses mentais, não daria a menor bola pro amigo cafajeste que insiste em desmoralizar a coitada da mulher. Mas ele era um obsessivo. Se fosse hoje, estaria monitorando as andanças da esposa por satélite.

Shakespeare, que não era bobo nem nada, achou que daria um bom personagem e escreveu o maior drama, com direito a ciúmes doentios, intrigas palacianas e uma cena cruel & impactante onde Otelo estrangula Desdêmona no leito. Tudo por causa de um lencinho. Pode?

Muito bem. Nesses tempos de penúria, montar o clássico na íntegra seria bastante improvável, pois a peça tem nada menos que 15 personagens, fora os oficiais, gentis-homens, mensageiros, músicos, arautos e servidores. Portanto, vamos à árdua tarefa da adaptação: cortar cenas, emendá-las, detonar coadjuvantes, ajeitar tudo, mudar o ritmo e, o toque de mágica: botar o texto que sobrou na boca de um ator para que encante a plateia num solo onde ele vai interpretar o triângulo central que protagoniza o falso adultério. O quarto elemento é Iago (encarnado por Márcio Nascimento), que se transforma no narrador da ação, tentando justificar sua atitude em razão de ter sido preterido pelo mouro a um cargo que lhe traria prestígio. É um ato de vingança programada e conduzida nos mínimos detalhes, como se ele estivesse tecendo a teia da discórdia com amargura e até com algum deleite.

Aos fatos: trocar o nome da peça de Otelo para Iago poderia ser uma grande sacada se o texto fosse outro, mas não, é o mesmo. Geraldo Carneiro não inventou nada, apenas traduziu e (vá lá) adaptou, mas percebe-se que foi bastante mexido ao longo do processo.

Seria realmente interessante saber os motivos intrínsecos de Iago para fazer o que fez. Haveria atenuantes, além das que estão no original? Teria o alferes motivos outros (psicológicos, que fosse) para que tenha insuflado o crime perpetrado pelo patrão? Estaria ele próprio apaixonado por Desdêmona ou qualquer coisa no gênero que nos desse a impressão de que (ao mudar o foco narrativo) haveria criatividade dramatúrgica?

Em vão. Nada disso ocorre e acompanhamos a trama (do meio pra frente) sem a menor expectativa de que isso aconteça.

Como a dramaturgia resolveu a presença de mais quatro personagens num solo? Através de bonecos manipulados pelo ator, que diz as falas de todos, mudando a entonação de voz: grossa e imperativa no caso de Otelo, femininamente caricata em Desdêmona e francamente anódina no caso de Cássio, a bola da vez como a hipotética (e improvável) terceira ponta do triângulo amoroso.

No entanto, nem mesmo isso chega a bom termo, pois não se deve confundir manipulação de bonecos com a mudança de lugar de pedestais encimados por uma cabeça de manequim e envoltos com xales, véus e mantas que são deslocados de um a outro segundo algum critério plástico que me escapou.

Ficar por trás dos pedestais dizendo as falas e meter os braços no meio das mantas para enfatizá-las, convenhamos, não chega a ser nenhum recurso genial.

E é provavelmente isso que incomoda na montagem de Iago: não houve grandes ideias, as musas não deram as caras e não bafejaram nada que fosse propriamente extraordinário ou engenhoso no ouvido da direção, dividida entre Márcio e Miwa Yanagizawa.

Mas talvez o maior equívoco nesta montagem seja justamente a banalização da palavra manipulação, pois é justamente isso que faz Iago na peça de Shakespeare: ele manobra os personagens, influencia-os, maneja-os a seu bel prazer como bonecos articulados com barbantes invisíveis. Portanto, explicitar uma metáfora, colocando-a como ação dramatúrgica, se não é um pecado mortal, é pelo menos venial.

Márcio Nascimento é um ator correto, está empenhado, mas decididamente mostra-se frágil para encarar incumbência tão colossal. Um projeto dessa envergadura exigiria ensaios de pelo menos seis meses e é provável que a produção não tenha tido esse tempo. Nada impede que sua performance se afine com o tempo.

Nem tudo está perdido nesta peça: a trilha sonora original composta por Rodrigo de Marsillac e tocada ao vivo no violoncelo pelo experiente Márcio Malard é genial.

 

IAGO

SESC Copacabana, Sala Multiuso – Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana. Tel. 2547-0156.3 a 27/10, quinta a domingo, 18h. Ingressos R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (meia), R$ 7,50 (habilitados do SESC) e grátis para PCG. Duração 60 minutos. Classificação 14 anos.