Se o resultado será ideológico ou não, os leitores dirão. O nosso diferencial está claro desde o primeiro número: não somos fisiológicos, não apadrinhamos ninguém, somos isentos, não temos o rabo preso, visamos apenas a qualidade do espetáculo, valorizamos a proposta, a plástica, o talento, damos mais destaque a iniciantes do que às grandes produções milionárias. Se isso não é o suficiente para que as citações que aqui estreamos sejam consideradas diferentes, então abrimos para debate.
A Editoria Teatro Hoje convidou alguns profissionais das Artes Cênicas para conversarem a esse respeito, de modo a se estabelecer uma perspectiva mais horizontal sobre as reais condições e possibilidades de velhas ou novas formas de dar destaque a profissionais que apresentam trabalhos notórios no teatro do Rio de Janeiro.
Em encontro do Conselho Consultivo Teatro Hoje, assim como em outras conversas que se seguiram sobre as dimensões e os valores de mais um prêmio de teatro no Rio de Janeiro, se debateu: possível? Por quê, para quê, a quem interessa mais uma premiação?
Pauta delicada mas necessária: legitima padrões de trabalho, determina linguagens, e por isso é também utilizada por grandes operadoras empresariais para interesses diversos. Mas a questão é: como ressignificar toda a carga de competitividade que se adquiriu à noção de prêmio ao longo do tempo?
A Editoria Teatro Hoje realizou a primeira reunião do Conselho Consultivo Teatro Hoje no dia 18.12.2019. O conselho é uma iniciativa da Beepecriaoc Arte para garantir o debate sobre os melhores meios para fortalecer as consultas à comunidade, de modo que as pautas de nossa publicação possam sempre refletir com seriedade as questões discutidas pela classe teatral no Rio de Janeiro.
Na ocasião falou-se sobre a vida estudantil de teatro na cidade, com escolas que abrem ao público a apresentação de suas encenações de práticas de final de curso. Também se comentou sobre vieses de críticas especializadas. E conversou-se com os presentes especialmente sobre premiações e suas abordagens.
O casal de artistas Adriana Maia e Xando Graça mencionou a injustiça que se pode cometer por bancas de jurados em justapor na indicação de prêmios de mesma categoria artistas jovens que fizeram bons trabalhos e que merecem o estímulo da visibilidade e artistas com carreiras estabelecidas, cujos trabalhos recentes também mostram valor e devem ser salientados. São difíceis escolhas.
O Bacharel em Teoria do Teatro e Professor Doutor em Engenharia de Produção da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Manoel Friques, foi indagado pela Editoria Teatro Hoje sobre a real validade de premiações de teatro, e o áudio a seguir, transcrito nas próximas linhas, traz sua resposta:
“Tem uma coisa que eu sou super felina — sou felina de uma forma geral —, mas que é, enfim, em relação à questão do prêmio ou da premiação. Eu sou muito cético em relação a esse mecanismo, esse dispositivo de você escolher melhores e piores e destaques. Acho que, em certo sentido é ultra capitalista e eu tendo sempre a não me envolver com nenhum tipo de premiação porque eu acho que o teatro não precisa disso. Eu acho que ele precisa de outras coisas. Acho que isso só reforça um estrelismo decadente do século XIX e a minha formação é pós-estruturalista, de morte do autor, de autorias compartilhadas, e acho que o mecanismo do prêmio ainda não deu conta disso principalmente no Rio de Janeiro na última década, que a gente tem uma hipertrofia de premiações e que tendem a premiar sempre os mesmos espetáculos e nunca uma diversidade de cenas. Obviamente se a gente for considerar tem alguns aspectos: acho que por exemplo o Prêmio Shell no ano retrasado premiou pela primeira vez — primeira vez — “A Inspiração na Revolta”, que é um teatro negro. É tudo muito atrasado. A primeira dramaturga foi a Grace, há três anos. Então, não sei. Sou meio desconfiado. Mas se a questão é uma premiação, ela também é um mecanismo de legitimação, não é? Então legitimação para quem? Acho que é pensar quais são as condições de possibilidade de um prêmio hoje e para quem esse prêmio. Por que fazer um prêmio? O que a gente ganha fazendo um prêmio assim? E aí talvez seja realmente buscar outras cenas, não essas cenas Zona Sul, provinciana… Enfim, é isso. Eu tenho muitos problemas com prêmio, sou meio chata com isso. Desculpa qualquer coisa. (…) É uma questão de discussão mesmo. Já escrevi sobre isso em um texto de 2016 e aí você dá uma olhada.”
Manuel Fiques, transcrito de áudio.
Leia o texto citado com elaborações sobre o assunto clicando no botão abaixo.
Muitas vezes os grandes prêmios não dão conta de refletir o real fazer teatral da cidade, pois impõem restrições de número mínimo de apresentações na qualificação de espetáculos indicados. Dessa maneira, pessoas que têm trabalhos relevantes acabam sendo eclipsadas por interesses comerciais que também merecem uma concorrência de narrativa. Afinal, o teatro do Rio de Janeiro não acontece apenas em salas de espetáculos na Zona Sul da cidade, como muitas vezes se tem a impressão. Como garantir a circulação para consumo de cultura em uma sociedade dividida?
Uma publicação inteiramente voltada para a análise e divulgação de peças de teatro no Rio de Janeiro não pode apenas repetir mais um padrão. É necessário problematizar os processos numa cidade tão cheia de contradições. Até que ponto o teatro dá conta de refletir suas perspectivas e realidades?
Não é possível se desconectar da lógica mercadológica pois os trabalhadores da arte investem muito tempo e dinheiro para conseguir levar ao público suas criações e é necessário dar um retorno a esta classe que nutre nosso serviço de facilitar o encontro das produções artísticas com o público. Apresentar os destaques do ano é, portanto, um retorno aos artistas do Rio de Janeiro em relação ao que vimos, mas, principalmente, mais uma forma de gerar reflexão acerca do fazer teatral.
Como se desvencilhar de vícios de uma tradição tão forte como a das premiações, muitas vezes corrompida, mas merecedora de reformulação e por isso mesmo de constante observação, análise e reflexão? A nós a resposta reside no desafio contínuo de garantir junto da exaltação, a discussão.
Seria premiar algo ou alguém uma questão de influência? Quem são as pessoas nesta esfera habilitadas a escolher? Com que critérios avaliar? Ou seria essa uma oportunidade de, dependendo do viés, descentralizar a escolha? Respostas ao tempo. A continuidade do trabalho dirá, mesmo porque um prêmio nem sempre é capaz de refletir a realidade, especialmente porque uma criação artística não é apenas um objeto autoral individual, mas sim reflexo de um desenvolvimento cultural coletivo, consequência de seu contexto na História.
Não objetivamos desvirtuar a noção de premiação, mas sermos responsáveis a respeito do espaço que se garante. No dia 12 de março de 2020 a Teatro Hoje vai entregar na sede da Companhia Teatro de Anônimo, na Fundição Progresso, às 21h, certificados Citação Teatro Hoje, acompanhados de um chope ou um suco de laranja para os citados.
Citação Teatro Hoje
Debate colocado, nossa editoria delibera iniciar em 2020 a seção Citação Teatro Hoje, que irá apresentar ao público os destaques merecidos da temporada anterior. A cada ano Teatro Hoje indicará as melhores e mais significativas peças, reverenciando a dedicação que cada ator, atriz, diretor, cenógrafo e iluminador imprimiram ao seu trabalho.
As categorias estão divididas entre Apontamentos, Dramaturgias, Performances, Produções e Técnicas, buscando trazer mais perspectivas a respeito das tradicionais categorias de reconhecimentos da área.
Com o objetivo de estimular os atores, companhias de teatro e produtores que montaram espetáculos especiais ao longo do último semestre, a partir desse Março indicaremos periodicamente alguns trabalhos que ficaram acima da média e que se destacaram por suas qualidades artísticas.
Citando quem a Editoria Teatro Hoje assistiu no ano de 2019 juntamente com membros do Conselho Consultivo Teatro Hoje em diálogo com outros colaboradores, a seção chama atenção para trabalhos cênicos com valor artístico e social dentro de seu contexto de criação e execução. Podendo citar desde uma pessoa até 15 e sendo possível salientar trabalhos dentre os piores ou dentre os melhores, a citação não permite a indicação pelos Editores, Conselheiros ou Colaboradores de produções às quais estejam vinculados. Excepcionalmente para essa primeira versão, foram levados em consideração espetáculos, pessoas ou iniciativas veiculadas a partir de 01.07.2019, momento de lançamento de nossa publicação.
Sempre fiel aos seus parâmetros de ética e isenção, nosso site não pretende desqualificar os demais trabalhos, mas identificar os que trouxeram ao teatro novidades estilísticas e ousadas que fizeram a diferença dentre os demais. Os destaques representam o resumo de uma garimpagem minuciosa & atenta com base nas críticas feitas ao longo do semestre passado, assim como das reuniões de consulta.
*****
Clique no botão abaixo para conferir os citados de 2020.
Comentários
Uma resposta para “Citação Teatro Hoje: mais uma premiação?”
[…] Citação Teatro Hoje 2020. Apenas mais uma premiação? […]