Dizem por aí que existem apenas sete histórias originais para se contar. No entanto, desde antes da bíblia até o último livro que chegou às livrarias ou ao teatro ou ao cinema, centena de milhares delas foram escritas, roteirizadas ou viraram peças que foram montadas nos quatro cantos do mundo. Os especialistas insistem em afirmar que são variantes daquelas sete fundacionais, consideradas as únicas autênticas. E que algoritmo ou influencer algum pode modificar essa situação.
O Grupo Carmin, de Natal, entende tudo isso, mas não dá muita bola, pois sabe que as vidas anônimas de pessoas comuns podem ser extraordinariamente encantadoras. Depende de como a história é contada, da fluência, do estilo, da originalidade, da pegada. Este é o caso de Jacy, uma mulher que nasceu sob o signo do acaso e vagou pela vida em busca de sua identidade durante nove décadas.
A gênese é boa: ao perambular pela rua sem maiores propósitos, o ator, diretor e dramaturgo Henrique Fontes encontrou uma frasqueira no lixo. Dentro dela, cartas, muitas cartas de amor e saudades escritas numa caligrafia feminina e delicada. Se aquilo tudo daria ou não um espetáculo, ele ainda não sabia, mas já era um começo, o início de alguma coisa ainda difusa, aliás como geralmente funciona o processo de criação de um artista.
Toda a trajetória de investigação é revelada aos poucos e convida a plateia a acompanhá-lo passo a passo na montagem de um quebra-cabeça demencial. Mesmo levando em conta que o caso era baseado em fatos reais, num dos momentos mais eloquentes do espetáculo, a atriz Maria Quitéria argumenta que seria necessário incutir um pouco de ficção no enredo, que ninguém é de ferro.
Portanto, Jacy atravessa a II Guerra Mundial, a ditadura militar, vê-se no centro de um importante conflito da política do Rio Grande do Norte, instala-se no Rio de Janeiro, casa-se com um americano da força aérea, aposenta-se do INSS, volta para Natal e morre aos noventa anos sozinha, a cujo enterro não participaram nenhum de seus parentes ou amigos.
Num dos momentos mais hilários, Fontes questiona por que Jacy teria voltado à sua cidade de origem, ao que é contestado por Quitéria, que contra-argumenta que todo mundo pode optar por aquilo que mais lhe agrada. E pergunta ao ator: Você não foi a Londres? Ele contesta: E você? Não foi a Paris? Voltou por quê? Num cinismo de deixar Swift ruborizado, ela diz, saindo de cena: Enjoei dos croissants!
O leitor já entendeu: a peça Jacy traz embutido no processo de montagem seu próprio making of. Através de diálogos, monólogos, fotos, cartões-postais de época e leitura das cartas, os atores se confundem com os personagens, analisando e discutindo a maneira mais razoável e pertinente de contar esta história sem que o público faça uma careta de incredulidade.
Para isso, lança mão de um recurso visual impactante: a filmagem dos atores através do celular é projetada no mesmo telão de fundo em que se alternam os fotogramas antigos e até uma árvore genealógica dos políticos envolvidos no tal conflito subterrâneo de fisiologismo explícito com nomes e sobrenomes e suas ligações espúrias na trama (uma espécie de power point paródico da Lava Jato), chegando (pasmem!) até os dias de hoje.: o atual Ministro de Comunicações Fábio Faria é neto de um dos envolvidos na mutreta.
Em Jacy, ao contrário de seus espetáculos anteriores (A Invenção do Nordeste, por exemplo), o Grupo Carmim optou pela narração dos episódios dividida entre Henrique Fontes e Maria Quitéria, ficando Mateus Cardoso na pilotagem das traquitanas tecnológicas.
O resultado não poderia ser mais desconcertante e perturbador. Enquanto acompanhamos a sucessão de tentativas para elucidar a vida de Jacy através dos fatos, leitura de cartas e bilhetes trocados entre ela e seu piloto americano, a plateia se surpreende ao conhecer detalhes do conflito entre os próprios atores, que discordam de determinadas abordagens, confundindo a realidade com a ficção e inclusive improvisando um meta teatro, pois há várias peças dentro de Jacy, diversos conceitos que são manipulados ao sabor das intempéries da narrativa, ora factual, ora alucinada, ora ficcional.
O texto é assinado pelo filósofo Pablo Capistrano e Iracema Macedo, com dramaturgia de Henrique Fontes, também responsável pela direção.
Um dos grupos mais criativos da atualidade com 15 anos de estrada, o Carmin não para de reinventar o Nordeste, com sua multiplicidade de gêneros e sortimento de cores. Participar dessa possibilidade de fabulação de lendas urbanas é um privilégio para o carioca e para o resto do país, pois o teatro atual está carecendo de pluralidade e ímpeto.
O espetáculo Jacy está em temporada no Teatro Firjan Sesi Centro até 22 de maio de 2022. Veja mais informações, local, endereço, horários, venda e preços dos ingressos em https://teatrohoje.com.br/2022/03/29/jacy-2/
