Angels in America

ANGELS IN AMERICA / UM PODEROSO LIBELO CONTRA UM DEUS VINGATIVO

 

Pela primeira vez montada na íntegra no Brasil, a versão de Paulo de Moraes e a Armazém Cia. de Teatro para o texto Angels in America, de Tony Kushner, é um voo alucinante e abrangente que enumera as características mais cruéis de um império em franca decadência, uma espécie de Babilônia moderna que se alimenta de desmandos políticos e truculência econômica que se alastraria para o resto do mundo nas décadas seguintes e que regem os conceitos neoliberais até hoje, colocando um ponto final em todas as utopias revolucionárias nascidas nas décadas de 60 e 70.

Misturando personagens reais e fictícios, a peça abre uma discussão pertinente do destino da Humanidade. Na primeira parte (O Milênio se Aproxima), o autor sedimenta as bases para uma aproximação com o tema: a Era Reagan traz o conservadorismo republicano de volta para engrenar o retorno ao mítico sonho americano. De quebra, a peste: 20 mil pessoas contaminadas pela AIDS, 5 mil óbitos, pessoas invisíveis gangrenando pelos cantos. Como consequência natural, a homofobia, a intolerância, o medo, o preconceito, a morte.

A segunda (Perestroika) avalia o fim da polaridade ideológica. Com a derrocada da União Soviética no Leste europeu, o equilíbrio desce ladeira abaixo. E, como todo bom escritor sabe, sem um antagonista à altura, não há história que se sustente. Um protagonista solitário torna-se narcisista, embebeda-se de si mesmo e confunde conceitos.

Tony Kushner não se limita a ser apenas um dramaturgo, ele é mais do que isso, é um criador de Cosmos onde trafegam confortavelmente os personagens da trama propriamente dita, misturados com uma iconografia delirante de fadas paródicas, bruxas reacionárias, anjos burocráticos e toda uma legião de mortos e vivos que dão um sabor especial ao enredo.

Angels in America equipara-se aos grandes textos da Antiguidade grega ao colocar os dilemas da Humanidade sob o ponto de vista da mitologia e do surdo embate entre as leis do Estado e os almejos dos cidadãos. A América de Kushner de meados da década de 80 está num impasse: ou recebe a última pá de cal passivamente ou se prepara para retomar o rumo da democracia. No meio disso, os personagens se contorcem.

A realidade alterna-se com sonhos e alucinações de todo grau & calibre, abrindo comportas e alçando a peça a um nível filosófico poucas vezes visto nos palcos. A versão de Paulo de Moraes para este Angels in America vale-se de recursos plásticos e cênicos que a transformam num espetáculo hipnótico e encantador de luzes e som. O texto é poderoso e delicado ao mesmo tempo, mais sugerindo que explicitando, e jamais cai na armadilha fácil do didatismo ideológico, seja na aproximação com a realidade factual, quanto na construção dos personagens, que é sinuosa e labiríntica, obrigando o espectador a garimpar (aqui & ali) fios condutores que possam arredondar significados e metáforas.

Portanto, é um reducionismo limitar a peça ao surgimento da AIDS nos anos 80 quando os gays foram estigmatizados por uma parcela conservadora que os elegeram a bola da vez. A peça é muito mais do que isso: ela esmiúça os rumos da política, tanto nos EUA quanto na Rússia; abre uma polêmica salutar sobre o choque entre a sociedade e um deus vingativo e furioso e principalmente fixa (sem meias tintas) a gênese do pensamento retrógrado que surgiu nesta década e que persiste até hoje.

Kushner foi hábil o suficiente para não convergir o foco exclusivamente para o problema da AIDS, utilizando-a como subproduto de uma doença mais endêmica, como fez Thomas Mann em seu caudaloso romance A Montanha Mágica. (Através dos internamentos em função da tuberculose, conseguiu mostrar que a Europa estava mais enferma do que se imaginava). No caso da AIDS, o famoso coquetel até que minimizou em parte os efeitos danosos, mas AZT algum conseguiu curar o mundo do vírus da convulsão social em que mergulhou depois da Era Reagan.

Os anjos fazem um jogo sujo de meio de campo, tentando apaziguar os ânimos dos que estão com a cabeça a prêmio diante de um deus mal-intencionado que insiste em lançar as chamas do castigo a uma sociedade que perdeu o rumo. Ao invés de mandar a bíblica chuva de enxofre ou infestação de gafanhotos, inventou uma nova peste, possivelmente reeditando os costumeiros rituais de purificação para separar o joio do trigo.

A equipe técnica é boa: Maurício Arruda Mendonça, Maneco Quinderé, Paulo de Moraes/Carla Berri, Carol Lobato e Rico Viana (respectivamente responsáveis pela tradução, iluminação, cenografia, figurinos e trilha sonora) contribuem sensivelmente pelo sucesso desta versão, um grupo de profissionais tão coeso & afinado que é impossível determinar onde termina o trabalho de um e começa o do outro.

O elenco é um caso à parte: Patrícia Selonk brilha em vários momentos, particularmente no papel de Hanna Pitt, na abertura hilária da primeira parte, e no cínico e discretamente vingativo fantasma de Ethel Rosenberg; Lisa Eiras (Harper Pitt) mostra que veio pra ficar, administrando um timing correto a cada cena, mas é Sérgio Machado quem dá o show no papel de Roy Cohn, um advogado escroque, homossexual enrustido, influente na política e que condenou à cadeira elétrica o casal Ethel e Julius Rosenberg, além de ter sido o braço direito do senador Joseph McCarthy, o responsável por ter submetido ao terror a América da década de 50 na famosa caça às bruxas de comunistas e simpatizantes. É currículo pra ninguém botar defeito. Um personagem difícil pela ambiguidade de sentimentos, ora no ataque, ora na defensiva, por vezes atirando pra todo lado, noutras se acovardando. Um paradoxo ambulante, com direito a chiliques, empáfia, brutalidade e grosserias de todo tipo.

Com uma habilidade nos recursos e profissionalismo incomparáveis, Sérgio Machado alterna poder e fragilidade, egocentrismo e amargura, mas seu personagem nunca demonstra arrependimento total. Provavelmente, faria tudo outra vez se fosse preciso, não necessariamente por causa de suas convicções, mas simplesmente porque não admite perder o prestígio. Acaba morrendo destruído pela AIDS sem vislumbrar uma saída honrosa da situação que o assola.

O resto do elenco mostra-se empenhado e simbiótico, desdobrando-se nos 24 papéis que a peça exige (entre principais e coadjuvantes). Jopa Moraes, Luiz Felipe Lepresvost, Marcos Martins, Rainer Cadete e Zéza (uns mais, outros menos) estão bem.

Angels in America é um espetáculo grandioso em todos os sentidos: tem cinco horas de duração, com uma bossa: pode ser visto de três maneiras: na íntegra (as duas partes, com um intervalo de trinta minutos); só a primeira parte ou só a segunda, em dias previamente estipulados pela produção.

 

A segunda temporada de Angels in America acontece no Teatro Prudential entre 28 de abril e 8 de maio de 2022. Informações, local, horário das sessões, veja em https://teatrohoje.com.br/2022/04/18/angels-in-america-2/