O Astronauta

O astronauta cético

Enfim, as lives chegam a sua maturidade estética e apresentam um espetáculo online que se autodenomina peça-cinema com toda razão: usa todos os artifícios do teatro mesclados à grandiosidade da telona. Videografismo, realidade virtual, programação virtual, direção de arte, cenário e figurinos estão de acordo com a proposta que, embora megalômana, já nasce épica por sua própria natureza.

Com dramaturgia de Eduardo Nunes, idealização e direção geral de José Luiz Jr. e atuação de Eriberto Leão, O Astronauta é um desses espetáculos que encantam logo de cara: ao aliar os elementos básicos da Science fiction com a crítica ao destino do ser humano, alcança proporções arrepiantes na reflexão sobre o que nos resta esperar de um mundo entregue à sua própria sorte diante da futilidade em que está imerso.

O cartaz, embora brega, tem um tom vintage que antecipa o que virá em seguida.

A sinopse é simples: um astronauta é mandado ao espaço de onde expressará suas impressões sobre o que vê e sente diante da grandiosidade do cosmo mediante transmissões ao vivo de toda sua trajetória, que são captadas por bilhões de pessoas ao redor do planeta, numa espécie de reality show estelar.

À medida que se distancia da Terra, no entanto, as conexões começam a falhar e, com o tempo, ele acaba sendo esquecido pela população, que provavelmente se cansa e ruma a outros meios de entretenimento.

Apesar do esmero técnico, o texto vacila: na primeira parte, sempre dialogando com o computador Hall (referência explícita à 2001: Odisseia no Espaço, escrita por Arthur Clarke, e filmada por Stanley Kubrick em 1968), o protagonista resume a biografia dos que o antecederam nessa empreitada rumo à lua, esmiuçando dados de Neil Armstrong, Michael Collins e Edwin Aldrin e as experiências anteriores da Apollo 11, 12, 13 e 17.

Fica-se sem saber, portanto, por que o astronauta teve que ir tão longe para nos resumir o que todos já sabem, mas é uma opção do dramaturgo e temos que respeitá-la, sempre na esperança de uma justificativa que arredonde o enredo.

Às vezes, entram no telão da nave participações especiais que perguntam ao astronauta o que vê, o que sente, o que imagina, como está sentindo, o que prevê.

Aparece seu pai, que lhe diz para tomar cuidado, pois aquela viagem pode ser um risco; sua namorada lhe manda beijos, mostra o cãozinho de estimação do casal e diz que ele está sendo considerado como um herói da Humanidade e todo mundo está acompanhando comovido sua jornada. Torcem por ele etc..

Como mestre de cerimônias, Zé Carlos Machado está entusiasmado, mas, como chefe do projeto, mostra-se alegrinho demais, parecendo um animador de auditório ao levantar a galera para os aplausos. Talvez um pouco mais de discrição caísse bem.

Ao chegar à superfície da lua, o mestre lhe pergunta o que está vendo, mas o astronauta se mostra cético e não responde à pergunta, mesmo porque ele está de costas para o telão, como se aquilo não lhe dissesse muita coisa.

A segunda parte é mais complicada: já que a lua não lhe despertou maiores ambições, a nave ruma para a superfície de Marte, mas, mesmo antes de chegar, minimiza as possíveis novidades, afirmando que o máximo que se poderia encontrar em termos de vida é uma bactéria proveniente da provável existência de água.

Será uma crítica ao antropocentrismo dos cientistas que só procuram novos tipos de vida em planetas com potenciais aquíferos? É uma tese que não deve ser desprezada, mas que fica encalacrada nos interstícios das entrelinhas e não é desenvolvida a posteriori.

Seus diálogos com a inteligência artificial de Hall, que a priori serve apenas para que o astronauta não caia no tédio ou na depressão, também deixam a desejar, pois está mais para uma burrice artificial: não acrescenta nada, ela não sabe muita coisa, diz que irá aprender com ele. Como o astronauta também não parece muito disposto a ensinar, esse marasmo brutal é desperdiçado num jogo de palavras.

Enquanto os efeitos especiais e o Videografismo rolam soltos pelos quatro cantos do palco da telona, criando um clima futurista extremamente instigante, ficamos na expectativa de que aquilo tudo nos explique a causa da empreitada.

Mas nessa segunda parte, quando o astronauta chega a Titã, a lua de Saturno, ele começa a falar de sua infância, quando foi com seu pai de carro e viram pela primeira vez a lua.

No meio disso tudo, há especulações sobre o que pode ter dado errado com a Terra e os seres humanos. Uma das mais inspiradas sacadas de todo o enredo é quando o astronauta faz as contas da população do planeta e compara com os bilhões de estrelas que povoam o universo, chegando à conclusão (provavelmente inédita) de que, no futuro, cada um terá o seu lugar garantido, a sua estrela, o seu paraíso particular.

 

O Astronauta, de Eduardo Nunes, idealização e direção geral de José Luiz Jr. e atuação de Eriberto Leão.

Elenco convidado (presenças em vídeo e/ou áudio): Luana Martau, ZéCarlos Machado, Jaime Leibovitch, Natascha Falcão, Joana Abreu / Direção musical: Ricco Viana / Videografismo, realidade virtual e programação visual: Rico e Renato Vilarouca / Direção de arte e cenário: Carla Berri / Figurino: Joana Bueno / Iluminação: Adriana Ortiz / Fotos: Emmanuelle Bernard / Direção técnica de palco: Marcos Martins / Marketing digital: Luciana D’Amato / Produção executiva: Flávia Menezes / Direção de produção: Carla Yared / Realização: Caja Arquitetura Cultural

Programação online do Teatro Firjan SESI Centro

 

4 de dezembro a 17 de janeiro, sextas-feiras, às 20 h, sábados e domingos, às 18 horas

(para em 20 de dezembro e volta em 8 de janeiro)

Ingressos colaborativos a partir de R$ 10,00 na plataforma sympla

link: https://beta.sympla.com.br/eventos?s=o+astronauta&tab=eventos

Duração: 70 minutos. Gênero: ficção científica. Classificação indicativa: 12 anos