Tempo Surreal

Oito meses surreais

São oito meses de pandemia. Foram oito meses de isolamento. Há oito meses as salas de espetáculo estão fechadas. E oito meses de luta para que a classe teatral receba o equivalente para tentar ao menos amenizar esse prejuízo, a exemplo do que outras categorias conseguiram.

Como não temos um ministro da saúde e muito menos da cultura, o resultado foi catastrófico: a pandemia arrastou-se com a falta de empenho governamental e nossa classe teve que se virar sem apoio algum.

Como dissemos no mês passado, conseguimos um êxito que pode ser uma vitória de Pirro.

A Lei Aldir Blanc faz água: corre o risco de contemplar com o auxílio apenas uma parcela mínima dos artistas de acordo com os protocolos burocráticos embutidos nas cláusulas. Mas há algo ainda pior nas entrelinhas: a verba proveniente do fundo de cultura pode ser desviada para os cofres do governo caso não seja integralmente distribuída, numa manobra que popularmente se chama de Na Mão Grande.

Ela foi redigida com essa pegadinha e ninguém se deu conta. Várias comissões estão trabalhando para reverter isso, mas não está sendo fácil.

Os editais que foram colocados em circulação pela Funarte são ridículos: pagam uma miséria e estipulam tantas regras que perdemos mais tempo em preencher formulários, baixar certidões negativas disso & daquilo e anexar certificados e anuências do que desenvolver o projeto propriamente dito.

Mesmo que a classe do teatro seja íntima do absurdo, o que vem acontecendo nas áreas municipal, estatal e federal navega nas águas lodosas da intolerância e do arbítrio. Está mais para Ricardo III que para Godot, digamos assim.

De qualquer maneira, seria realmente ingenuidade se esperássemos, nessas alturas do campeonato, algo de sensato de um governo que acha que a Terra é plana, não é mesmo?

O melhor que o secretário da Cultura tem em seu currículo são aparições aleatórias e bizarras como coadjuvante de quinta categoria em Malhação, e substituiu dois antecessores absolutamente incompetentes, um deles assumidamente nazista e a outra que não conseguiu nem esquentar a cadeira antes de tomar um pé na bunda.

Enquanto isso, tendo que guardar distanciamento e a higienização necessários segundo os protocolos, a classe tentou um pouco de tudo: peças montadas em drive in, espetáculos filmados, lives gravadas com celular, nada que consubstanciasse um retorno efetivo para os artistas.

Para este mês, temos duas notícias: uma boa e outra ruim. Só que as duas são a mesma: os teatros vão poder reabrir com 50% da lotação. Os que têm mil lugares, só poderão disponibilizar 500, o que, a rigor, dependendo do investimento da produção, pode ser compensador.

Já as salas que possuem 100 lugares ou menos, deverão amargar o infortúnio de sempre e simplesmente permanecerem fechadas. O espaçamento entre os espectadores é como batalha naval, todos os lugares em volta de um grupo, por exemplo (à frente, atrás e dos lados) ficam inviabilizados.

Ou seja: a classe de teatro continuará batalhando seu voo solitário rumo a um futuro cada vez mais incerto.