Toda temporada de teatro deveria ter um Harold Pinter. E um Shakespeare. E um Ibsen. Mas todos eles dirigidos por experts no assunto, de maneira clássica, sem firulas ou modismos, sem cacos. Afinal, se são clássicos, quer dizer que são atemporais, não precisa atualizar nada. Pode parecer estranho para os novos diretores, mas Ary Coslov respeita o texto, respeita as rubricas, encena de maneira correta, dando ênfases aqui & ali, sublinhando pausas, modulando o ritmo, curtindo o mote e (o melhor de tudo) reverencia a ideia inicial do autor não de forma submissa, mas nobremente afetuosa.
Há equívocos no teatro contemporâneo: se você colocar falas de Arthur Miller ou Eugene O`Neill, por exemplo, na boca de atores quicando numa cama elástica, isso não quer dizer que vire um exercício de Bob Wilson. É inconsequente e inútil, pois os principais atributos de um profissional são a humildade e a discrição. Não é necessário eclipsar o autor para mostrar as próprias virtudes dramatúrgicas.
Fotos: Leo Ornelas
O Inoportuno é o melhor Pinter que já vi montado, o que não é pouco, pois já assisti Traições, com o Paulo Autran, e vi também uma encenação de O Quarto (1957, seu primeiro trabalho) em Roma, na Itália, sem contar as filmagens de Festa de Aniversário (com Roy Scheider e Robert Shaw) e Volta ao Lar (com Cyril Cusack e Ian Holm).
Este texto (The Caretaker) é de 1959, lá se vão quase 60 anos, portanto. Nessa época (embora negasse), Pinter ainda era um apaixonado discípulo de Samuel Beckett. Os diálogos são estranhos, absurdos, violentos, assim como o caráter oscilante dos personagens, que varia de acordo com parâmetros que temos de reavaliar momento a momento. Se há fio condutor, temos que garimpá-lo ao longo da narrativa. Sim, há coerência, mas ela é dissimulada o suficiente para que tenhamos de rebolar para compreender o contexto como um todo.
Tudo é bom nesta montagem (a iluminação de Paulo César Medeiros, a cenografia de Marcos Flacksman e a trilha sonora brilhante do próprio diretor), mas é na atuação de Daniel Dantas no papel de Davies que está o encanto supremo desta nova versão. Não se pode dizer que tenha superado as expectativas, pois o ator é tarimbado o suficiente para que esperássemos algo no gênero.
Como se sabe, a construção de um personagem passa por vários estágios, desde a incorporação propriamente dita até a verticalização de detalhes que poderiam nos passar despercebidos numa primeira leitura. Mas ele vai além: como o diretor, Daniel respeita o andamento ciclotímico de Davies e acompanha passo a passo cada instante, cada nuance e toda e qualquer explosão de caráter, mas sempre referenciando o clima absurdo da trama. Não há um minuto sequer em que ele não esteja de acordo com a cadência da peça, inclusive (e talvez principalmente, levando em conta a verborragia do autor) nos silêncios, nos meneios de cabeça e corpo, nas hesitações.
Até mesmo André Junqueira (visivelmente o ator do elenco menos aquinhoado pelas musas) sai-se bem num dos momentos cruciais do enredo, que é o monólogo que ele engrena pouco antes do final da peça. Com um pouco de boa vontade, engolimos também seus constantes olhares para o horizonte, como se estivesse tomado por acessos de alheamento bíblico. Nada que comprometa o aspecto como um todo, porém.
A opção por este título até certo ponto redundante é simples. The Caretaker, em inglês, quer dizer cuidador, uma pessoa que toma conta de alguém ou alguma coisa. Como, no caso, o personagem interpretado por Dantas é um morador de rua convidado por dois irmãos donos de um prédio com vários apartamentos para que cuide da restauração do imóvel, o mais certo seria que ele fosse especificado como zelador, título adotado no mundo inteiro. A produção, no entanto, quis prestar uma homenagem a Antônio Abujamra, diretor de uma primeira montagem deste texto ainda em 1964, que adotou este título.
O Inoportuno é programa obrigatório a todos os que ainda curtem um teatro clássico (hoje chamado jocosamente de teatrão). Sim, é teatrão, não gosto de teatrinho. Ninguém deveria gostar, aliás, mas o mundo é isso mesmo e não podemos fazer nada.
O INOPORTUNO, direção de Ary Coslov, com Daniel Dantas, Well Aguiar e André Junqueira. Teatro PETRA GOLD, Sala Marília Pera – Rua Conde de Bernardote, 26, Leblon. Tel: 2529-7700. Sábados e domingos, 20h30, até 21/7. Ingressos: R$ 80,00 e R$ 40,00. Vendas Internet: www.sympla.com.br. Bilheteria: 3ª. a dom., a partir das 14h. Duração: 90min. Class.: 12 anos.











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