Copacabana Palace, o musical

Copacabana Palace, um musical clássico

Nova Iorque, 1968. Dois irmãos voltam a encontrar-se dezesseis anos depois da morte do pai para desocuparem a casa que deixaram intacta ao longo de quase duas décadas. Um velho avaliador vem dar-lhes um preço pelos móveis e objetos dos quais querem se desfazer. No entanto, a transação não é tão simples como parece: todas aquelas coisas fazem parte da história da família, estão repletas de memórias e obrigam-nos a confrontarem-se com o passado e com as escolhas que fizeram na vida.

Qual foi o preço dessas escolhas? Qual é o preço das contas que ficaram em aberto? Entre a crise econômica e a realidade familiar, o que se perde e o que se ganha? Neste encontro cheio de emoções, são debatidas as grandes questões da vida, com a esperança sempre acesa de uma maior compreensão do que é profundamente humano.

O dramaturgo Arthur Miller concebeu esse enredo para sua peça O Preço, onde a memória afetiva resvala diretamente na dificuldade de se chegar a um consenso.

É justamente esse o tema central de Copacabana Palace – o musical: vender ou não vender um monumento arquitetônico construído e mantido no muque diante da girândola financeira que coloca em risco sua existência? São tantas as lembranças, tantos eventos e tantas reviravoltas, são tantos artistas nacionais e estrangeiros que se apresentaram em seu palco, é um local tão icônico que impossibilita chegar a um preço justo para sua venda. Afinal, quanto vale a vida de um hotel? Será a aritmética capaz de avaliar o amor e a dedicação que a família Guinle investiu durante quase um século?

Muitas propostas foram feitas e outras tantas rechaçadas. Ideias surgiram e morreram no nascedouro. Os filhos decidem construir um enorme edifício de escritórios ao lado, a matriarca resiste sob a alegação que iria descaracterizar a intenção do falecido marido. Nessas marchas e contramarchas, tudo é colocado na berlinda. Qual o preço que estamos dispostos a pagar pelas nossas ambições e pelos nossos desejos?

Com texto das autoras e produtoras Ana Velloso e Vera Novello, idealização e direção de Gustavo Wabner e Sérgio Módena, o espetáculo é um musical genuinamente brasileiro de alto nível artístico.

Com um elenco de 15 atores/cantores/bailarinos, o musical conta a história do mais famoso e luxuoso hotel brasileiro a partir dos principais acontecimentos e situações que marcaram sua história, desde a construção do prédio à beira mar na então quase deserta praia de Copacabana até os dias de hoje, passando pelo fechamento de seu cassino numa atitude questionável do presidente Gaspar Dutra até seu tombamento pelo Iphan. Toda a atmosfera de glamour, tradição e bem-estar que pairam em cada ambiente do Hotel sofre uma leve mexida para adequar a realidade à ficção natural de um musical.

Por suas dependências, passaram nomes emblemáticos como Mistinghett, Carmen Miranda, Santos Dumont, Marlene Dietrich, Edith Piaf, Einstein, Sara Vaughan, Frank Sinatra, Marlene, Bibi Ferreira, Cauby Peixoto, reis e rainhas, que se hospedaram, frequentaram a piscina ou deram seus shows no Golden Room. Teve casos tempestuosos, desde a tentativa de assassinato de um presidente da República por sua esposa com ciúme da amante do marido até o irascível Orson Welles, que atirou sua máquina de escrever pela janela, causando danos materiais ao hotel e esgotando a paciência dos hóspedes. Só faltou mesmo Brigitte Bardot que aparece em inúmeras fotos na varanda do hotel em 1964 e que não foi mencionada.

Embora Suely Franco, Vanessa Gerbelli e Cláudio Lins tomem conta do palco, o resto do elenco não fica em segundo plano, cada qual constrói seus personagens de forma eficaz em todos os sentidos, pois contribuíram para que o todo ficasse rigorosamente redondo e sincero. O empenho dos atores e atrizes comove, eles literalmente comungam do objetivo de tornar o espetáculo esteticamente atrativo e mergulham de corpo & alma no âmago da narrativa como se entregassem suas próprias vidas para manter o ritmo e a cadência num nível de excelência. Até mesmo os que não são propriamente dotados de extensão vocal, compensam isso com emoção e vivência.

A impressão é de que o espetáculo já nasceu com a aura de um musical clássico: a genialidade das coreografias de Roberta Fernandes está na simplicidade e contenção, a direção apara arestas aqui & ali no intuito de verticalizar cada segmento dramático ou impasse do texto, configurando um amálgama de sensações empolgantes e veementes e Suely Franco é um caso à parte. Do alto de seus 83 anos, canta, dança e interpreta Mariazinha Guinle com o útero, Cláudio Lins passa de Otávio, o empreendedor do projeto, para Frank Sinatra com um pé nas costas. E Vanessa Gerbelli dá um show de experiência: no palco, faz um rodízio de personagens de forma extraordinária e encarna cada qual com um espírito soberbo e brilhante.

Todos, sem exceção, participam como atores principais, os coadjuvantes ficam na plateia, que não cansa de aplaudir as performances de um elenco azeitado e comprometido.

Uma das mais acertadas atitudes técnicas foi a de optar pela narrativa não cronológica (inclusive nos flashbacks) pois todo bom biógrafo sabe que esta é a maneira mais frágil de compor uma história: ao enumerar os eventos de acordo com o calendário, na maior parte das vezes, o enredo emburaca em platôs burocráticos, perdendo o ritmo da narrativa e criando uma ociosidade que põe tudo a perder. Afinal, são quase três horas de duração. Não é mole. As autoras e o diretor souberam dosar isso de maneira magnífica, enxertando nos locais exatos fatos e curiosidades como se estivessem escrevendo um livro de contos.

A história do Copacabana Palace está contada. Se tudo é verdade ou se há omissões, fica a cargo dos historiadores, que têm toda a liberdade de questionar e criticar determinados excessos ou lacunas, mas, de uma coisa, tenho certeza: é um musical superior, tanto no conteúdo quanto na forma elegante, harmoniosa e atraente de contar uma história impressionante de abnegação, ética e ímpeto empreendedor.

Copacabana Palace, o musical está em temporada no Teatro Copacabana Palace, até 6 de fevereiro de 2022.

Informações com sinopse, ficha técnica, preços e horários: https://teatrohoje.com.br/2021/12/09/copacabana-palace-o-musical/