Debates públicos ajudam a levar público às casas de espetáculos
Na medida em que a função das democracias é questionada ao redor do globo, redes sociais tornam-se ferramentas de horizontalização do debate sobre a vida, o mundo e as práticas econômicas. Por outro lado, os teatros também se mostram instrumentos importantes, além dos audiovisuais, para o aprofundamento local das discussões.
O Século XXI parece começar com uma inevitável revisão do papel do Estado na vida dos cidadãos, e parte dessa equação inclui quem domina os principais espaços de narrativas, que são colaboradores para a geração de um senso comum: “Eu sei, passou no Jornal!”. O debate vital que deve ser enfrentado no Brasil e no mundo é a concentração dos canais de comunicação, controlados por poucas famílias, que numa tradição de contação de histórias corrobora através de assimetrias com a manutenção do status quo e com a desorientação na compreensão dos fatos políticos mais recentes.
Percebe-se que os espaços de debate na maioria dos órgãos jornalísticos são aqueles para discutir quanto mais à direita atos executivos de economia poderiam estar, enquanto que uma dissidência mental existente na base de estudiosos e intelectuais evoca tardiamente e à distância o conhecimento histórico e referenciais econômicos que indicam o momento geopolítico e a importância da inclusão social na redução da criminalidade, assim como do combate à fome e da produção de cultura na geração de maior consumo, emprego e renda.
Nesse sentido, reconstruir um país após uma implosão institucional demandada pelo capital estrangeiro onde Cinemateca de São Paulo e Museu Nacional pegam fogo, Ministério da Cultura é rebaixado a Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo e recursos emergenciais para trabalhadores da cultura têm sua distribuição postergada, é urgente apropriar-se dos espaços de fala para apresentar às comunidades outras visões e demandas que possam ir além do cultivo à desesperança e à manutenção do espírito de sobrevivência, evitando o tradicional salve-se quem puder.
A Rede Santa Cruz de Ecologia e Cultura (REDESCEC) tem buscado se aproximar de debates comunitários pela promoção do turismo de cultura e ecologia na foz do Rio Piraquê-açu, em Aracruz, Espírito Santo. Em colaboração com a Associação de Moradores de Coqueiral (AMOC) e a Oficina de Artes & Cia., em Coqueiral de Aracruz, a organização desenvolveu a programação Amostragens, nas primeiras e terceiras quintas-feiras do mês. A cada quinta, o público da região pode assistir alternadamente a apresentações musicais, récitas de literatura, seminários temáticos e debates públicos. São alternativas possíveis para a ocupação de espaços de pautas sem grandes investimentos de produção.
Do mesmo modo o produtor Michel Melamed propôs uma programação de conversas abertas, os Debates Eleitos, na Casa das Artes, no Rio de Janeiro, com transmissão ao vivo pela internet. Assim como o Movimento dos Artistas de Teatro do Rio de Janeiro (MATER) tem unido todos os esforços para dialogar com os setores políticos envolvidos com a economia criativa e se afirmar como um representante da classe de trabalhadores cênicos na cidade.
O Forum TH, da Teatro Hoje, também é uma tentativa de abertura de mais espaços, mesmo que digitais, e de diálogo com os principais agentes da cena sobre seus trabalhos e sobre as dificuldades de produção no setor. Cabe à sociedade participação e a busca da compreensão do seu espelhamento para propor novas visões, rumos e abordagens.