Duetos

DUETOS / PATRYCIA TRAVASSOS ARREBENTA

Não é fácil vermos uma comédia popular inteligente nos palcos cariocas. No passado, talvez; hoje, é quase impossível. Duetos, do inglês Peter Quilter, é um desses casos (ou acasos) que aparecem muito de vez em quando. Com direção de Ernesto Piccolo, provavelmente num de seus melhores momentos, e interpretação de Patricya Travassos e Marcelo Faria, a peça encanta pela diversidade de temas, diálogos absolutamente hilariantes e produção caprichada. Em seus quatro episódios, consegue agradar a gregos e troianos. Tanto o público mais exigente até os que se contentam com pantominas de estilo televisivo saem satisfeitos com o resultado, pois é engraçado e engenhoso na exata medida
em que o texto sugere.
De qualquer maneira, por mais talentoso que seja o dramaturgo, sabe-se que um texto é apenas o pontapé inicial. Ele precisa ser burilado, talvez adaptado, e, com certeza, interpretado à altura de sua concepção. Quanto a isso, que ninguém se preocupe: Patricya Travassos arrebenta. Ela é burlesca, hilária, simpática, zombeteira e paródica. Seu timing de comicidade é perfeito. Nos quatro episódios, consegue construir personagens completamente diferentes. Suas falas são invariavelmente acompanhadas de risadas da plateia numa contínua (e crescente) atuação que chega ao clímax e volta à reflexão em questão de segundos. Não que a peça tenha uma argumentação que propicie altas
elucubrações, é uma comédia assumidamente escrachada que se orgulha de ser apenas isso, mas num grau tão elevado que tira do sério até os mais desatentos.
Apesar da gritante diferença de dotes dramatúrgicos entre ela e Marcelo Faria (que serve apenas de escada), isso pouco importa, pois a atriz vale por dois, minimizando consideravelmente esse abismo de predicados e preenchendo as lacunas naturalmente, sem artifícios.
Os episódios se completam com pequenos links que o diretor e o iluminador Aurélio de Simoni souberam administrar com capacidade, experiência e talento. São casos simples: o constrangedor encontro de um casal de cinquentões via tinder; o aniversário de um gay e sua eterna partner que gerencia a festa; a viagem a um lugar exótico de um casal que pretende se divorciar e a preparação do casamento de uma noiva que tem dúvidas se está realmente fazendo a coisa certa, sendo tutelada por seu irmão que ora a apoia, ora recrimina seu pomposo e picaresco figurino.
Como se vê, nada aprofundado, nenhuma pegada excêntrica, nada que propicie uma reflexão erudita. E é justamente aí que reside o brilhantismo do texto: enxuto, realista, cômico e sem o menor ranço de pedantismo, ele dá conta do recado por se bastar a si mesmo.
Depois do espetáculo, porém, algumas dúvidas surgem. (1) Terá sido realmente necessário ir buscar um texto em outro país? Os produtores não confiam nos dramaturgos nacionais que poderiam ter concebido algo similar tão ou mais engraçado? (2) A plateia realmente percebe a diferença entre esse texto e aqueles mais empenhados no besteirol simplório de apelo fácil? (3) Levando em conta que 80% do público nem sabe quem é o autor do que está assistindo,
apostar num dramaturgo inglês ou americano tem de fato todo esse glamour que atrai hipoteticamente plateias das mais variadas classes sociais para lotar as casas de espetáculo? (4) Encomendar aos profissionais nativos uma comédia com essas características seria assim tão utópico e arriscado? Traria menos público? (5) Comprar os direitos autorais de um autor estrangeiro é mais compensador à produção do que contratar os serviços de um dramaturgo nacional?
Em parte, essas questões são respondidas de maneira protocolar, como salienta o release da assessoria de imprensa: montado no Brasil espetáculo que é sucesso em mais de 20 países. Essa dinâmica é controversa, pois cria um vício que irá se prolongar pelas próximas décadas e que negligencia unilateralmente a capacidade de produção e limita o acesso ao trabalho dos dramaturgos nacionais. Não é à toa que boa parte está se direcionando para o segmento de roteiros de filmes e minisséries, o que, para eles, deve ser mais compensador em termos de grana, mas compromete sensivelmente o futuro do teatro.
À parte isso, Duetos é um espetáculo imperdível, que traz uma lufada de ar fresco aos palcos cariocas. Apesar de a ficha técnica ser de primeira qualidade, a cenografia de J. C. Serroni é mais eficiente que bonita; o figurino de Cládio Tovar é exagerado, mas funciona e a trilha sonora de Rodrigo Penna e o visagismo de Rafael Senna são mais adequados do que deslumbrantes. Somando tudo, o saldo é positivo e alça a atriz Patricya Travassos como uma das melhores comediantes do Brasil.

Duetos está em temporada no Teatro das Artes. Veja mais informações sobre a peça, endereço, dia, horário, ficha técnica completa etc. em https://teatrohoje.com.br/2022/08/03/duetos/