Um dos maiores enigmas de Hollywood continua sendo a morte de Marilyn Monroe a 4 de gosto de 1962 em Los Angeles, Califórnia. Oficialmente, a causa foi uma overdose de barbitúricos, mas jamais saberemos realmente o que aconteceu.
Como ninguém nos Estados Unidos acredita na teoria da conspiração, ficou por isso mesmo. Nos anos seguintes, porém, várias teses surgiram: ela vinha sendo monitorada pelo FBI e pela Cia. há um bom tempo em virtude de receber em seu leito tanto o presidente da República John Kennedy quanto seu irmão Bob. A cena foi mexida, dizem que o corpo foi transladado de outro local para seu quarto e os depoimentos de eventuais testemunhas são contrastantes.
Ela estaria constrangendo a Casa Branca por estar grávida de um filho que poderia ser tanto de John quanto de Bob; teria abortado em seguida, sob a conivência dissimulada do próprio terapeuta que acompanhava seu estado de depressão constante; na cena, também estaria o ator Peter Lawford, que fazia o jogo de meio de campo presidencial de suas gandaias entre a política e o showbizz.
E a suposição mais cruel de todas: ela teria recebido uma injeção letal no coração, administrada sabe-se lá por quem e em quais circunstâncias, como especulou o escritor Norman Mailer em seu livro Marilyn, de 1973, cuja nova edição está disponível nas livrarias desde 2013.
Em seus curtos 15 anos de carreira (estreou no cinema em 1947), Marilyn teve uma vida agitada: entre protagonista e coadjuvante, ela fez 31 filmes dirigida pelos maiores nomes de Hollywood, foi capa de inúmeras revistas, casou três vezes, teve alguns casos extraconjugais, foi perseguida por paparazzi, era presença constante em coquetéis e festas, foi indicada duas vezes como melhor atriz ao Bafta e ao Globo de Ouro, vencendo apenas uma por Quanto mais Quente Melhor, mas não ganhou nenhum Oscar.
Marilyn era sexo puro. Sua voz sussurrada dava a impressão de estar permanentemente em pleno gozo, mas, se levarmos em conta o perfil de seus maridos, é provável que tenha tido menos orgasmos do que se imagina. Seu corpo voluptuoso e seu molejo brejeiro instigavam a libido das plateias a cada dois minutos, tanto no set de filmagem quanto fora dele.
Além de tremendamente sensual, era esperta: substituiu pelo instinto suas deficiências técnicas como atriz. Sabia contracenar com a câmera como poucas de sua época. E não sou eu que digo isso, foi Laurence Olivier, quando contracenou com ela no filme O Príncipe Encantado, de 1957.
Começou como todo mundo: primeiro, mostrou sua nudez em calendários que se espalharam rapidamente pelas paredes das borracharias, depois, sua inteligência e, por fim, seu talento inato.
Sessenta anos depois de sua morte, a suspeita perdura. Morte acidental, suicídio ou assassinato?
Com dramaturgia de Daniel Dias da Silva, supervisâo de Roberto Bomtempo e direção de Ana Isabel Augusto, Marilyn Atrás do Espelho tem idealização e atuação de Ana Sant`Ana, que encarna no palco a diva do cinema, contando seus últimos instantes.
Uma pena que o autor do texto tenha optado pelo mais seguro: nos momentos de agonia final, o mito relembra toda sua vida; É esse o miolo da peça. O problema é que todo mundo conhece a vida inteira de Marilyn, através dos milhares de livros, fotos, filmes, documentários e até minisséries da Netflix e HBO: uma infância sofrida, os abusos sexuais, a morte da mãe, o orfanato, as fotos eróticas onde ganhou 50 dólares, a famosa cena do ar do metrô levantando suas saias e mostrando a calcinha, o ciúme de Joe DiMaggio, a manipulação intelectual do equivocado Arthur Miller, a bebedeira, as drogas, o símbolo sexual que a transformou numa caricatura de si mesma.
Ou seja, o autor abraçou a versão oficial, eximindo-se de ficcionar e ousar tanto em termos estéticos quanto narrativos, resultando numa biografia autorizada, uma espécie da chapa branca que não acrescenta ao que já sabemos, o que, aliás, já era esperado. Quando na ficha técnica, existe a rubrica Idealização e atuação de alguém, não dá outra: o texto foi encomendado e provavelmente dirigido.
O que dizer da interpretação de AnnaSant´Ana? Uma série de colagens de fotos famosas, poses e entrevistas já vistas à exaustão. Infelizmente, a atriz não possui o timing necessário para atuar com desenvoltura e liberdade, limitando-se a um simulacro, uma paródia. Com isso, perde a oportunidade de construir uma personagem genuína que possa transcender a realidade e dar um salto para o universal.
Quase no final da peça, uma surpresa: cansada de negativas e abandono por parte de seus parceiros, Marilyn diz para Bob Kennedy: “Se você me rejeitar, eu abro o jogo e acabo com sua carreira política. Tenho tudo registrado.” Portanto, não foi à toa que ele estava no quarto dela no mesmo dia em que morreu, procurando furioso e fora de si pelo hipotético caderninho onde estariam suas derrapadas políticas e sexuais. Brigaram em altos brados se desentenderam, mas (estranho) o fuzuê não foi suficiente para que sua empregada Eunice Murray ouvisse os gritos e a acudisse. No quarto, além de um ensandecido Bob Kennedy, também estavam seu psiquiatra Ralph Greenson e o ator Peter Lawford. A cena tinha mais personagens que uma peça de Shakespeare. Ao contrário da última cena de Hamlet, no entanto, a única morta era ela.
Portanto, a gente pode até não acreditar nas teorias de conspiração, mas, convenhamos, foi muita coincidência junta. Qualquer detetive amador teria chegado mais longe na investigação se a polícia de Los Angeles tivesse um pouco mais de vontade. Como havia altos interesses em jogo e figurões da política, o caso foi encerrado às pressas, à revelia da verdade.
O autor do texto ainda sai pela tangente, afirmando que a causa do suicídio teria sido uma festa no resort de Frank Sinatra onde ela teria sido estuprada por mafiosos. Difícil acreditar.
