o dilema do teatro

O DILEMA DO TEATRO CARIOCA

Não é segredo pra ninguém que as telenovelas contribuíram bastante para abastardar o teatro. Talvez inconscientemente, talvez à revelia. Digamos que foi mais uma sequela do que uma intenção. O fato é que, como se não estivessem satisfeitos em ter uma imagem midiática, atores meia boca procuraram legitimar suas carreiras subindo no palco. A reação das plateias foi a mais óbvia possível: passaram a ir ao teatro não pra sorver um excelente texto montado ou dirigido por profissionais do ramo: elas queriam ver de perto seus ídolos e garimpar selfies depois da peça. Nada mais natural.

Há duas correntes que avaliam este fenômeno de migração. A primeira diz que estes atores trouxeram um novo público para o teatro e a segunda afirma que essa simbiose mexeu na estrutura das peças, privilegiando o entretenimento e a caitituagem e fazendo com que os diretores de desdobrassem para inseri-los no contexto de qualidade de interpretação.

Esses atores perceberam, no entanto, que essa situação até certo ponto aleatória poderia trazer dividendos que não estavam no cardápio: suas presenças se tornaram obrigatórias. No Rio de Janeiro, por exemplo, isso virou praxe: muito dificilmente um projeto de teatro sem a presença de alguém que trabalha nas telenovelas consegue financiamento. A única coisa que os gerentes de marketing das empresas avaliam é a ficha técnica. Se as sugestões não forem do seu agrado, tudo vai pro brejo.

Portanto, os atores conseguiram não só incrementar seus budget mensal, como também passar a ideia de que são “atores de verdade”. No começo, foram trucidados pela crítica. Depois, tudo se acalmou.

Não parou por aí: com o objetivo de enxugar o orçamento dedicado à dramaturgia, no lugar de atores, algumas emissoras dedicadas a esse tipo de entretenimento caseiro passaram a recrutar modelos que ostentavam em seus currículos (no máximo) um comercial de sabonete ou laxante ou eram finalistas do BBB e tinham dificuldade em pronunciar palavras com mais de uma sílaba.

Aconteceu o que se esperava: esses modelos também subiram nos palcos e a reação continuou na mesma balada: selfies, autógrafos e a idolatria de sempre.

Mas foi constatado um impasse: apesar de suas atuações serem medíocres, ainda era teatro. As peças tinham um enredo, um desenvolvimento da trama de acordo com os parâmetros estipulados pelo diretor e, em alguns casos, até uma mensagem, o que confundia bastante o entendimento do público. Esse “problema” foi detectado logo e os dramaturgos foram devidamente substituídos por roteiristas midiáticos que escrevem esquetes pra TV, inundando as salas de espetáculo com stand ups, comédias românticas e besteirol generalizado. Tão pensando o quê? Nem só de Tchekhov vive o teatro.

Anualmente, as faculdades de teatro despejam duas ou três centenas de atores no mercado de trabalho. Não descarto a hipótese de que grande parte desses atores e atrizes hoje visa exclusivamente aparecer na telinha (ou na Globo ou na Record), querendo ser mais um Tiago Lacerda ou Juliana Paes do que um Paulo Autran ou Cacilda Becker. O teatro passou a ser uma vitrina onde se expõem, torcendo para que alguém importante dessas emissoras esteja na plateia e os contrate nem que seja para fazer uma ponta em Malhação ou nas novelas bíblicas da concorrente.

Em paralelo a isso, quando os críticos de teatro dos jornais e revistas (O Globo, JB e Vejinha) foram chutados pra escanteio, surgiram os blogueiros na internet, que assumiram a postura de analistas especializados e emitiam suas opiniões a torto e a direito, fingindo entender do assunto.

Como miséria pouca é bobagem (tanto no sentido metafórico quanto real), houve um fenômeno no teatro carioca que surpreendeu a todos: a multiplicação de prêmios. Além do Shell, pipocaram, da noite para o dia, pelo menos outros três ou quatro, pilotados não necessariamente por gente da área artística ou jornalística. Percebia-se claramente que não tinham estofo cultural para estarem naquela função, pois faziam resenhas que resvalavam em espécies de crônicas mal escritas. Sem isenção nem distanciamento, esses neocríticos se arvoraram, subiram nas tamancas e conseguiram ser respeitados através do fisiologismo historicamente arraigado no balneário.

Muito bem. Todos essas novas (vamos dizer assim) entidades cênicas precisavam formar seu corpo de jurados para as premiações anuais. Pergunta valendo cinco pontos: adivinhem quem foi chamado? Os blogueiros, evidentemente.

Fiquei imaginando quanto tempo aquela farsa poderia durar, levando em conta que normalmente (num mundo civilizado) as premiações através do voto de trambiqueiros caem no vazio. Qual não foi a minha surpresa quando percebi que até os artistas que eu mais respeitava sentiam-se honrados e comemoravam seriamente as indicações e os prêmios.

Isso tudo aconteceu antes da pandemia, mas persiste até hoje. Ultimamente, a situação dos produtores piorou ainda mais, pois as empresas potencialmente financiadoras atrelam a verba a nomes midiáticos que eles mesmos impõem. De nada adianta apresentarem um projeto exemplar com diretores, iluminadores e cenógrafos de renome, o que vale é a presença de atores de telenovelas na ficha técnica. Aliás, são eles mesmos que negociam diretamente com as empresas que dispõem de verbas para financiamento. Os produtores sabem disso e colocaram o rabo entre as pernas. Seja musical, seja uma peça clássica, seja drama, seja comédia, seja um texto de autor nacional ou estrangeiro, pode ser qualquer coisa, quem bate o martelo é o gerente de marketing provavelmente de um banco, que usa o dinheiro público liberado pela Lei Rouanet para descontar no imposto de renda. Esse é o padrão. Estamos em pleno auge do reino da pilantragem.

Algumas tentativas para modificar essa situação foram feitas nos últimos anos, mas abortaram ainda no ovo.