Pinóquio (crédito: Renato Mangolim)

PINÓQUIO / Um teatro de verdade

Das três ou quatro companhias estáveis de teatro do Rio de Janeiro, a Cia. PeQuod é a que provavelmente conseguiu resolver com maior sucesso o longo caminho entre a idealização de um espetáculo e seu resultado. Um exemplo disso é sua versão de PinóQuio, um espetáculo de sons e luzes que lhe empresta uma exuberância que transcende a adequação entre o texto do livro e sua adaptação para o palco. E não estou falando apenas em qualidade, mas também no comprometimento dos componentes com esta nobre arte. Miguel Vellinho e sua trupe estão realmente empenhados em viver o teatro na sua plenitude, chegando ao auge da criatividade ao comemorar suas 21 primaveras de existência numa autêntica e constante abnegação à arte e à vida.

De qualquer forma, sabe-se que os escritores de livros infantis têm uma obsessão por passar uma mensagem edificante para a molecada. Portanto, é bem provável que o italiano Carlo Collodi também tivesse a intenção de construir uma fábula moralista onde enfatizaria para as crianças os malefícios da mentira. Em tempos de fake news, nada mais atual, mas a PeQuod vai além e se torna mais abrangente ao fazer um autêntico estudo de caso sociológico e psicológico dos personagens que trafegam entre nós.

Não foram poucos os clássicos da literatura (seja em filme quanto em desenho animado) que sofreram adulterações canhestras dos roteiristas. O exemplo mais significativo é o personagem Frankenstein. Aquele monstro com parafusos no pescoço não existe no original de Mary Shelley, é invenção pura, terror barato para oferecer sustos gratuitos no espectador. E, no entanto, foi essa estética que se perpetuou durante quase cem anos, o que é uma pena, pois o livro é muito mais que isso.

Muitas versões de Pinóquio já foram adaptadas para os inúmeros meios artísticos: cinema, HQs, desenhos animados e teatro, nem todas fiéis ao original. Quem mais o desfigurou foi Walt Disney no desenho de 1940, que insistiu no efeito do nariz crescer a toda hora, o que abastardou o sentido da coisa como um todo e cravou na cabeça da criança e do adulto o estereótipo que todos conhecemos até hoje.

Criado por Tim Rescala (adaptação, letras e música) e dirigido por Miguel Vellinho, este espetáculo dá ênfase à linguagem visual de circo, tanto nos figurinos, quanto nos cenários e no visagismo. Ao criar este universo múltiplo, o diretor dá o pontapé inicial para seu voo através das várias e diversificadas interpretações que é possível dar ao texto, restituindo ao original de Collodi sua real intenção.

Não é fácil proporcionar ao mesmo tempo diversão e reflexão às crianças e adultos, o que nos dá a oportunidade de diferenciar o Teatro de Verdade do simplesmente fisiológico, caso das constantes versões para o palco dos desenhos animados do cinema hollywoodiano, que não passam de imediatismos com o objetivo de encher os bolsos dos produtores.

A expressão Teatro de Verdade, portanto, substituiria o antigo Teatrão, termo cunhado para enfraquecer os espetáculos que se pautam por seguir regras explícitas da boa encenação e não compactuam com artifícios e modismos que normalmente caducam na semana seguinte.

PinóQuio é teatro de verdade, com pesquisa prévia, ensaios exaustivos, soluções inovadoras, performances ricas, enérgicas e fascinantes. O fervor e o ímpeto com que os atores mergulham no texto é comovente, narrado por uma soprano e um barítono que dão o toque operístico à trama, mas sem deixar o coloquialismo de lado.

Esta versão da PeQuod traz uma lufada de ar fresco a uma modalidade de teatro normalmente conduzida de forma negligente e enfadonha. o teatro infantil que privilegia os adultos, trazendo piadas que as crianças passam batido, pois, afinal (pensam os produtores), são eles que levam os filhos ao teatro e é necessário evitar bocejos; o teatro infantil que se fixa em correrias e tombos, visando a criança que está acostumada aos humorísticos de baixo nível da TV; há espetáculos infantis que chegaram à conclusão que adaptar um clássico para o teatro significa trocar as palavras difíceis, pois pressupõem que a criança é burra; e há os poucos que entendem o teatro como a melhor forma de entreter, formar e educar quem amanhã tomará os rumos da Nação. É o caso deste Pinóquio da PeQuod, que lembra de perto os espetáculos medievais da Commedia dell`Arte, salpicado de citações de Fellini (tanto na música quanto nos movimentos clownescos de seus artistas).

O que mais chama a atenção logo de cara é que o adaptador foi fiel ao original, sem deixar de exibir seu talento nas sutis modificações que agrega ao texto. Por exemplo: o fato de o nariz de Pinóquio aumentar quando diz uma mentira foi minimizado, provavelmente com o intuito de deixar claro que não é bem ele que fala inverdades, mas a sociedade é que é uma farsa, pois, ao ganhar vida, o boneco se depara com escroques de todos os calibres, assassinos, rufiões, ladrões e gente que garante que seu patrimônio pode ser triplicado se for investido direito. Qualquer referência aos bancos e financiadoras não é mera coincidência.

Mas chega um momento em que o espetáculo, apesar de muito bem dirigido e da excelência das interpretações, exige um personagem mais serelepe, transgressivo e irreverente: é quando entra em cena Liliane Xavier no papel de Pinóquio quando ganha vida. Ainda é um boneco, mas que se mexe, corre, faz estripulias, argumenta e põe em dúvida a honestidade dos seres humanos, mesmo os que se travestem de bichos metafóricos.

No palco, Liliane é uma festa: consegue articular movimentos faciais como se seu rosto fosse de plástico; um simples menear de sobrancelhas pode ter mil significados. Não há um mínimo instante em que ela não sirva ao conteúdo do espetáculo dezenas de acepções e conceitos que enriquecem a essência da obra de Collodi. Em outras palavras: Pinóquio é o próprio brasileiro, com malandragem e jogo de cintura, suficientes para se safar de todas as arapucas com as quais se depara pelo caminho. Mesmo tendo aprendido a filosofia das ruas, possui uma escala de valores ética que o acompanha durante toda sua trajetória, pois mistura malemolência com safadeza, o que tira o maniqueísmo do personagem e enriquece o final, quando a fada o torna um ser humano de verdade: mesmo depois de conhecer tantos traidores, vagabundos e ociosos, ele acha que vale a pena fazer parte deste mundo, perdoando a todos.

Enfim, uma peça de grandeza indiscutível (inclusive no tamanho) que merece ser vista por adultos e crianças, homens e mulheres, idosos e jovens de todas as crenças, opções de gênero e etnias.

PinóQuio está em cartaz no Teatro III do CCBB-RJ, quarta-feira a domingo (quarta a sexta, às 19 horas, sábado e domingo, às 16 horas), de 1 a 23 de dezembro de 2021 e de 5 a 30 de janeiro de 2022. Veja resenha e informações na Teatro Hoje, link: https://teatrohoje.com.br/2021/11/27/pinoquio-2/