O que é, o que é? Há personagens e diálogos, mas não é bem teatro; há um cenário, mas não é um palco; há uma câmera que acompanha os personagens, mas não é propriamente cinema na acepção mais prosaica do termo. Tem 30 minutos. Portanto (pelo menos até um tempo atrás), é um média-metragem.
O filme de Rodrigo Portella abre com um caixão sendo fechado e muitos atores e atrizes mostram-se extremamente comovidos pelo que aconteceu. Alguém morreu naquela família, isso fica evidente. Mas, quem? Depois de um tempo, eles voltam à casa, que está em petição de miséria: rachaduras pelas paredes, buracos, goteiras do teto, alguns móveis mambembes espalhados aqui & ali.
De repente, enquanto os personagens abrem e fecham portas, entra o representante de uma imobiliária e mostra os aposentos para um casal que supõe-se queira comprar ou alugar o cafofo. Não fica bem claro quem (em sã consciência) poderia morar naquelas ruínas e muito menos por quê, mas vamos em frente.
É difícil identificar cada um dos familiares: há um velho que sorve uma sopa o tempo todo, um garoto autista que esgaratuja desenhos pelas paredes, uma senhora que o acude nos surtos, uma periguete que aparentemente mostra-se tão alheia ao infortúnio que insiste em desnudar-se: é flagrada por um homem da família apenas com um sutiã, calcinha abaixada, urinando no vaso sanitário. Há um impasse. Em seguida, ela gargalha. Ele fecha a porta do banheiro.
Depois disso, a senhora (depois ficamos sabendo que é a filha mais velha) junta-se à periguete e as duas abrem as portas do armário, escolhem roupas (supõe-se que sejam da falecida) e vestem-nas, mas ambas estão com um sorriso muito estranho nos lábios.
Na sequência, o luto dá lugar a uma espécie de histeria coletiva: atracam-se, rolam pelo chão, dançam pelos aposentos, alguns estão alegres, o autista continua sua sina de correr o carvão no entorno da casa e a periguete gargalha enquanto mostra partes ainda inéditas de seu belo corpo. Entra outra jovem com uma saia curtíssima que se fecha num quarto e de lá não sai mais.
O release da assessoria de imprensa vem a nosso socorro dizendo que quem morreu foi Alice, a filha caçula que dava sentido à vida em comum. Diante da morte, as relações se desequilibram, se revelam estranhas e até mesmo impossíveis. Segundo ele, é uma peça-filme numa versão cinematográfica experimental. O problema é que não se assiste a um filme com um guia, o enredo deve ser o suficiente para que possamos entender o que rola na tela.
O experimental mesmo fica por conta da ideia de que o relacionamento entre os membros de uma família é controverso, cada qual com suas bizarrices. E elas se acumulam ao longo da trama à exaustão, flertando ao final com uma espécie de realismo-mágico que transforma as goteiras do teto numa chuva torrencial dentro da casa, enquanto uma fogueira no quintal dá a impressão de que estão sendo queimadas as roupas da falecida.
Enfim, cada um com sua visão de mundo e sua maneira muito particular de dar vida a seus personagens. A julgar pela habilidade com que Portella dirige o filme, é um craque no assunto, sabe tudo, faz travellings excepcionais, enquadra com sabedoria e sensibilidade cada parte da casa e o rosto dos personagens, mas, sinceramente, espero que, da próxima vez, seja menos abstrato e metafórico ao abordar um tema tão cru e realista. Se, da tumba, Alice mandou um beijo, ele provavelmente deve ter ido para outro endereço.
Ficha técnica
Roteiro e direção: Rodrigo Portella | Elenco: Mariane Mockdece, Luan Vieira, Ricardo Gonçalves, Milla Fernandez e Guaracenir Bravo. Diretor de fotografia: José Eduardo Limongi | Arte: Julia Deccache | Steadicam: Fabrício Tadeu | Desenho de som e mixagem: Tiago Picado | Trilha Sonora Original: Marcello H | Color Grading: Fabrício Batista | Assistente de direção: Maria Clara El-Bainy | Primeiro assistente de câmera: Douglas Lacerda | Eletricista: Stuart Nascimento | Contra-regra: Paulo Cesar Cerqueira | Montagem: João Felipe Freitas | Preparação corporal: Mariane Mockdece | Som direto: Diogo Perdigão | Still e making of: Leo Marvet | Arte gráfica: Milla Fernandez | Créditos e legenda: Anaxi Altamiranda | Assessoria de imprensa: Ney Motta | Elenco de apoio: Edvaldo Freire, Manoel Alves, Jussara Lima, Rosa Almeida e Emerson Dezidério |
Serviço
Estreou dia 24 de novembro de 2021, às 20h.
Temporada de 24 a 30 de novembro, no Canal de O Cortejo, no Youtube.
Link de acesso à transmissão: http://youtube.com/c/CortejoTeatro
Classificação: 14 anos. Duração: 30 min
