É provável que não exista um parâmetro confiável para se detectar a derrocada geral de uma nação, mas quando uma atriz do porte de Clarice Niskier tem dificuldades de conseguir um patrocínio para financiar suas peças de teatro já não é mais hora de refletir, mas pegar em armas.
O que ela faz em A Esperança na Caixa de Chicletes é um manifesto político & social com pitadas de humor, poesia, canto e muita ginga. E principalmente elegância.
É o resultado de três anos de pesquisa histórica sobre tudo que nos diz respeito: como fomos colonizados pelos portugueses, de que maneira damos a volta por cima diante de dificuldades extremas, a melhor forma de irmos levando esta vida com um sorriso no rosto. Isso tudo sem apelar para jargões ou clichês de nenhum tipo e, ainda por cima, dar esperanças a um povo tão sofrido quanto o nosso.
Seu texto é comovente na medida em que escancara as maiores barbaridades que tivemos de enfrentar no passado e principalmente as do presente. Não pode haver hora mais exata para desnudar nossas manifestações sem sermos rabugentos ou desesperados, apenas cínicos e irônicos, como convém em toda e qualquer situação de risco.
Para que essa equação pudesse germinar, contudo, ela se valeu de toda uma equipe de profissionais: Amir Haddad na supervisão de direção; Zeca Baleiro na supervisão musical; José Maria Braga na direção de produção; Maria Eugênia, na assistência de direção; Aurélio de Simone na iluminação, Kika Lopes nos figurinos e Rose Gonçalves na preparação de voz, entre tantos outros que se juntaram nesta empreitada hercúlea de conceituar deveres para uma situação de guerra.
Pois é justamente nesta guerra que estamos inseridos atualmente que a atriz pretende dar uma espécie de fórmula para os dias que fatalmente virão, mas que ninguém se preocupe: Clarice Niskier não é panfletária em momento algum, está acima de ideologias, partidos ou modismos.
O que ela propõe é simples: devemos saber da nossa história, devemos entender quem somos, de onde viemos, para onde vamos. E isso só poderá acontecer se estudarmos muito.
Como dramaturga, diretora e intérprete, ela enfrenta a tudo e todos com bom humor (por vezes, amargo), recorrendo à infância e elucidando fatos e episódios através da memória, mas sem ser nostálgica.
O monólogo tem uma pegada bem brasileira. É como se Darcy Ribeiro aceitasse a ajuda de Stanislaw Ponte Preta para comporem juntos uma peça exemplar de sátira social e política.
Clarice Niskier fez ainda melhor: chamou Zeca Baleiro, provavelmente o herdeiro de toda a carga artística de Chico Buarque se este país ainda estivesse com as faculdades mentais em ordem. Como estamos num estado de exceção, é possível que ele também tenha dificuldades de financiamento de seus discos.
Convenhamos, uma dupla irresistível.
Ao escrever este roteiro, Clarice mimetizou o estilo de Baleiro (inclusive a maneira de rimar) e usou o humor como deboche, a exemplo do Samba do Approuch, aliás, uma das canções (dentre tantas) utilizadas na peça.
Venha provar meu brunch
Saiba que eu tenho approach
Na hora do lunch
Eu ando de ferryboat
A desenvoltura da atriz em cena é superlativa: usa seu corpo como uma varinha de condão ao reger uma orquestra de palavras que saem de sua boca como afiadas lâminas que se incrustam em nossos ouvidos e lá ficam sem pedir permissão. E uma malemolência que coraria a própria Clara Nunes. Sua dicção é extraordinária. Entende-se o que diz da fileira do fundo à boca do palco na mesma intensidade. À habilidade com que pronuncia o texto, ela agrega pequenos gestos minimalistas, com os quais consegue equalizar toda a encenação.
Com estes artifícios, ela reinventa o teatro, apropria-se de toda a história passada e dá um sentido novo a cada nuance de voz e de corpo. Sua dança é lunar. O espaço da sala serve de compromisso com a mensagem. A iluminação dos holofotes abre uma vereda inédita no palco ao reverenciar o povo brasileiro em toda sua plenitude.
E isso é poesia. Clarice Niskier é uma poeta. Dizem os entendidos que a poesia e o homem nasceram juntos. São tão ancestrais quanto o mundo. Tangenciam as esferas do cosmos e captam as vibrações dessa massa amorfa de latitudes, nervos e artérias, amoldando-se no mesmo barro que dá origem à aurora branca. Ambos são água e espuma. Ambos são luz e abismo. Ambos são cambrianos.
Ciente disso, a atriz resolveu botar as mãos na massa e criar uma odisseia interna. Com muita psicologia e talento, ela rejubila-se de ser brasileira, como aliás todos deveriam fazer. Se coloca uma crítica aqui & ali, é com doçura. Aos que pretendem se mudar para Portugal ou Austrália em virtude do que estamos passando, ela se contém: não admoesta nem apazigua, diz apenas que é um equívoco.
O texto de Clarice segue a orientação de Fellini: seus filmes são como passarinhos: bicam com ternura.
O espetáculo estreou no Teatro Petra Gold em 2020 e teve a apresentação suspensa devido à pandemia.
A Esperança na Caixa de Chicletes Ping Pong. Teatro Oi Casa Grande – Av. Afrânio de Melo Franco, 290A (Shopping Leblon) – Rio de Janeiro RJ. Tel.: (21)2511-0800
De 3 a 18 de novembro, quartas e quintas-feiras, às 20 h. Ingresso R$ 80,00(inteira) e R$ 40,00(meia) Ingressos online https://www.eventim.com.br/event/a-esperanca-na-caixa-de-chicletes-ping-pong-teatro-casa-grande-14392880/
Duração: 100 minutos. Classificação etária: Livre.
