A temática do teatro mudará depois da pandemia?

A pandemia foi um tempo de reclusão. As pessoas tiveram que ficar trancadas em casa para não morrer. Nesse intimismo que as confrontava consigo mesmas, foram obrigadas a fazer um balanço da vida. Prós e contras, sucessos e fracassos, opções acertadas, opções incorretas, paradoxos. Com o fechamento das salas de espetáculo, os artistas de teatro também tiveram tempo para avaliar o que montaram e se conseguiram se comunicar com o público através do conteúdo temático que incutiram em suas peças.

Com a volta gradativa das plateias ao teatro, é razoável supor que dramaturgos e diretores tenham reciclado seus parâmetros em virtude dessa reflexão filosófica. Afinal, esse interregno de quase dois anos foi suficiente para que chegassem a novos temas advindos de uma catástrofe sem precedentes na História universal. Se até os civis pensaram na possibilidade da morte iminente, no altruísmo e safadezas que aconteceram durante a pandemia, os artistas têm a obrigação de colocar tudo isso no palco. Provavelmente de outra forma que deve levar em conta inclusive a estética e a postura diante do mundo.

Isso não se dará de imediato, pois muitos dos projetos foram interrompidos ainda quando estavam no estágio de ensaios ou na captação de recursos financeiros para montá-los. Portanto, o que vimos até agora são justamente essas peças que não tiveram a oportunidade de estrear antes da pandemia e estavam incubadas e semiprontas, mas que não trazem em seus enredos o que ocorreu durante a tragédia.

É necessário saber se houve realmente essa preocupação dos encenadores em contemplar as sequelas da calamidade.

Há um precedente que não é favorável a essa esperança: durante a ditadura militar de vinte anos, muitos livros, filmes e peças de teatro foram proibidos, o que gerou uma lenda de que as gavetas dos escritores estavam lotadas de romances que falavam da tortura, das prisões arbitrárias, da censura e do banimento de professores e cientistas, o mesmo ocorrendo em relação à dramaturgia e roteiros de cinema.

O que se viu na fase de abertura democrática, no entanto, frustrou boa parte do público: as gavetas não estavam tão lotadas assim. Uma ou outra manifestação, aqui & ali, mas nada de muito significativo chegou às livrarias, às telas ou aos palcos. Por algum motivo obscuro, a ditadura ainda não foi exumada como se deve no Brasil, ao contrário do que se tem visto no Chile e na Argentina. Um exemplo didático é o filme Marighella, que só entrou em cartaz em 2021, exatamente 36 anos depois do fim da aventura militar, que terminou em 1985.

Se a mesma coisa irá acontecer com as tramas de teatro, ainda é cedo para especular, mas já existe rolando uma ideia que pode preocupar: dizem alguns produtores que, depois do que aconteceu, as plateias estão precisando de mais besteirol para desanuviar o ambiente mental e não se estressarem com enredos muito complexos e reflexivos.

Se isso de fato acontecer, a arte brasileira continuará na contramão dos outros países, cujos artistas estão preocupados com o que aconteceu e pretendem fazer com que as pessoas nunca mais sejam as mesmas, pois o próprio mundo nunca mais será o mesmo.

Agora, é torcer para que estas premissas estejam erradas.