Roma. Imagem: Wikipedia.

Teatro é a arte de romper com o estabelecido

Roma Antiga. Imagem: Wikipedia.
Roma Antiga. Imagem: Wikipedia.

O teatro é uma segunda vida que corre paralela. Ela nos acompanha durante toda a trajetória; nos servimos dela, intercambiamos informações, nos alimentamos desta espécie de instituição com gênese independente da nossa história, pois ela já existia antes de nascermos. Utopicamente, tentamos domá-la, correndo atrás para ver se conseguimos resgatar o tempo perdido e entender toda sua inesgotável magnitude.

Ler todos os textos que existem desde a Antiguidade: começar pelos clássicos gregos e latinos, acompanhar as montagens dia a dia, descobrir novos autores, decifrar suas mensagens, compreender seus desígnios para a vida prática, dialogar com os personagens, sonhar com sua fantasia até que sejamos um só, unir o surreal à realidade prática, mas percebemos que isso é impossível, pois sempre ficaremos atrás de algum modo, ora porque, quanto mais lemos e vemos, admitimos (talvez por um estranho mecanismo da maturidade) que é necessário reler e rever, pois já não somos os mesmos, e os signos do teatro (a cada dia que passa) também se transformam; ora porque (por mais céleres que formos) avançamos timidamente, enquanto o teatro não para, é como uma pirâmide de ideias que vão se acumulando à revelia de nossos esforços.

Entretanto, não é uma via que corre paralela por acaso nem essa é uma imagem de retórica: há todo um jogo por trás que justifica essa alteridade. Durante séculos, a Igreja empenhou-se em estigmatizar a arte, afirmando que os homens não deviam confundir a realidade com a ficção, sob pena de alheamento: o devaneio era proibido perante as leis do espírito. O riso, por exemplo, era-lhe vedado; a fantasia deveria ser circunstancial e com hora marcada; nada poderia desvirtuar o homem do nobre caminho da produção. Seus aliados mais próximos, os reis, acharam a ideia boa e a encamparam. Afinal, alguém tinha de trabalhar para que a realeza e os papas pudessem usufruir do ócio e da gandaia como lhe aprouvesse.

Portanto, não só o teatro, mas também a poesia, a música e a pintura entraram por caminhos oblíquos e labirínticos, procurando uma maneira oficial de ser aceita (ou pelo menos tolerada), apesar dos dogmas religiosos e morais que lhe impunham uma rígida concepção de conduta. Os artistas (também eles sacanas) deram um jeito de divertir a realeza, que passou a financiá-los de formas distintas: proviam de mármores e tintas os escultores e pintores para que fossem modelados com garbo e elegância para a posteridade; escribas recebiam as benesses da corte para que a literatura descrevesse seus feitos bélicos e os perpetuassem heroicamente na História; poetas & cantores eram alimentados com o objetivo de aliviá-los do stress nos momentos críticos; compositores de música erudita recebiam financiamento com a finalidade de elevar o espírito dos soberanos para Deus; e, por fim, dramaturgos e atores eram recebidos na corte para que deleitassem reis e rainhas nos momentos de ócio, desde que não transgredissem as regras impostas por essa aliança com a igreja, que, na realidade, era de fachada, pois os dois lados disputavam o poder, revezando-se ciclicamente.

A arte sempre esteve atrelada a esse paradoxo: revolucionária por definição e natureza desde que nasceu, teve que se adequar para sobreviver. Mas tudo começou bem antes, quando o poder dos reis ainda não existia de fato, pois os estados eram administrados por chefes do exército e a religião ainda trabalhava em surdina. A reviravolta aconteceu quando o Império Romano houve por bem deleitar também o povo na sua já famosa política de Pão & Circo, com a finalidade de apaziguar possíveis revoltas advindas da opressão e injustiças sociais. A malta ignara também passou a ter acesso ao deleite, mesmo que rudimentar. O Circo, no caso, consistia de feéricos shows em imensas arenas onde gladiadores lutavam até a morte e cristãos eram mastigados e engolidos por leões; havia também sangrentas corridas de bigas, quadrigas, acrobacias, bandas, espetáculos com palhaços, artistas de teatro e corridas de cavalo. De quebra, o público recebia quantidades consideráveis de cereal (era o Pão).

Não, não era exatamente arte ou teatro, talvez estas fossem as partes suprimidas, mas o show estava ali. Com o tempo, a plebe começou a receber (ainda timidamente) tipos de encenações que remontavam uma espécie de teatro com conteúdo, com dramaturgia, que teve seu auge na civilização grega, mas que tinha sido momentaneamente esquecida pelos (assim chamados) bárbaros romanos.

De qualquer forma, reis, imperadores, senadores, clérigos ou o que fosse que detinham o poder em todas as regiões do globo sempre se mantiveram com um pé atrás em relação à arte, pois vislumbravam o perigo iminente de que aquilo pudesse abrir a cabeça dos cidadãos comuns, fazendo com que refletissem sobre a vida e as instituições, o que não era nada bom. Para manter o povo sob tutela constante, eles tinham que monitorá-la e discipliná-la, colocando limites.

Apesar de dirigido e domado pela realeza, o teatro passou a ter uma função oficial, mas os artistas não se furtaram a passar informações implícitas no sentido de alertar a população sobre os desmandos e futricas de bastidores através de metáforas, que a fazia refletir (por mais tosca e alienada que fosse) sobre a hipocrisia dos monarcas.

Por conta disso, muitos artistas que apostaram na ignorância ou distração de seus mecenas, perderam (literalmente) a cabeça. Pode ser especulação, mas não é despropositado imaginar que o teatro (e todo tipo de arte) aprimorou-se justamente para engabelar a realeza, procurando formas mais apropriadas e sutis no sentido de se comunicar com o povo sem levantar suspeitas quanto a suas intenções subterrâneas. Uns conseguiram mais que outros. Uns foram mais felizes em suas narrações, utilizando-se de artifícios retóricos sem que seus objetivos fossem flagrados em contradição com a moral e a política vigentes. Determinados dramaturgos são hoje considerados gênios não apenas pela maneira de usarem suas técnicas, mas também pelas artimanhas de ridicularizar os soberanos sem que eles se dessem conta.

Três coisas aconteceram ao mesmo tempo: a curiosidade do povo aguçou-se em detectar nas entrelinhas o que os autores queriam dizer além do que era dito propriamente; a intuição dos monarcas aprimorou-se em flagrar possíveis desvios de rota, acendendo o sinal de alerta vermelho em casos especiais, e, por fim, novos atores dissimulados surgiram no picadeiro das artes, aumentando consideravelmente o elenco de saltimbancos a serviço da ideia de disseminar a ruptura com o estabelecido.

Optaram pelo humor, a melhor maneira de entreter ambos os lados de forma isenta. Qualquer coisa, estavam apenas brincando. Surgiu o álibi perfeito de mostrar que o rei estava nu através da irreverência dos clowns (das ruas e da corte), que batiam lá e cá, uma no cravo, outra na ferradura.

O teatro é como uma segunda vida que corre paralela, uma segunda pele que nos liberta e aprisiona. Alguns especialistas dizem que ela é uma espécie de recado que os homens dão a Deus com objetivo de alertá-Lo sobre nossas reais condições de criar mundos outros que não esse a que estamos condicionados. Pode haver soberba ou petulância nisso, mas é inegável que (em casos especiais) o resultado não passa muito longe do alvo e, às vezes, inclusive, o sobrepassam com méritos indiscutíveis. Outra linha de raciocínio argumenta que a ficção foi inventada para corrigir os erros da realidade, o que seria uma variante da primeira, porém mais prudente, embora também arrogante. A última tese especula sobre a tentativa de o homem se eternizar através da arte, burlando a morte, esse enigma sempre presente em suas aflições filosóficas. O corpo morre, mas a obra permanece.

Na verdade, seja por qual motivo for, o teatro e a arte em geral estão presentes em todos os estágios de nossa trajetória e não passamos um só instante sem que elas deixem de influenciar nossos atos e alimentem nossos anseios. Se peitamos ou não o Criador, se preenchemos ou não as lacunas deixadas por incompetência ou desleixo de Seu método ou se pretendemos ou não nos eternizar através da arte, isso pouco importa. O que importa hoje é saber se o teatro ainda guarda a mesma influência no espectador.