Como a existência do teatro está baseada na aglomeração, fomos os primeiros a fechar as salas de espetáculo e seremos os últimos a reabrir. E, pelo visto, também estamos na rabeira de todas as classes sociais para receber o auxílio-pandemia. Desempregados do mercado do varejo já foram contemplados, comerciantes, empresários, industriais. Todos, de alguma forma, foram lembrados. Cabeleireiros e manicures foram liberados para seus trabalhos presenciais. Reabriram parques turísticos antes da hora, bares, restaurantes, praias, lojas de conveniências não essenciais e estão cogitando a volta das escolas. Risco total.
Apesar de já assinada e sancionada pelo governo, a Lei Aldir Blanc ainda tem um longo trajeto para que chegue até o bolso dos artistas de teatro. E, quando chegar, ainda teremos que assimilar as regras para quem ela será destinada.
Ao que tudo indica, haverá um corpo de jurados que avaliará quem tem e quem não tem direito. Quais as prioridades? Que tipo de escala de valores será criada para resolver esse assunto? Quais requisitos serão impostos? Que protocolo será instaurado?
A julgar pelo questionário que a secretaria municipal colocou em circulação no mês de agosto, tivemos que responder a muitas perguntas capciosas: você é branco ou negro? Você é gay, trans ou hétero? Mora com alguém? Recebe pensão? É aposentado? Recebe auxilio emergencial? A que religião pertence? A renda familiar passa de meio salário mínimo?
Um sufoco que teve um fim hilariante se não fosse trágico: depois de muita polêmica, ficamos sabendo que a grana será administrada e disponibilizada pelo Estado e não pelo município. Ou seja, o questionário será jogado no lixo e teremos que preencher outro em breve.
E o flagelo será ainda maior: vamos ter de baixar dois aplicativos, que provavelmente terão os mesmos problemas que conhecemos bem: o sistema vai cair, o acesso será dificultado por artifícios técnicos, haverá filas virtuais, não ficará on line por muito tempo etc., a exemplo do que ocorre com o app da Caixa. Se tudo der certo, nosso pedido ficará Em Análise por uma eternidade.
Ao que tudo indica, a quantia de 600 reais a que teremos (ou não) direito foi fixada e nem todos receberão. Quem tiver qualquer outro auxílio, ficará de fora. Um artista que esteja aposentado ou receba o auxílio emergencial ou qualquer tipo de abono ou bônus em função da pandemia não terá direito.
Como se 1.045 reais ou os 600 fossem suficientes para pagar o aluguel, o condomínio, as contas de luz, gás, água e ainda comprar remédios e alimentos! Uma situação indigna e humilhante.
Não somos mendigos, não teríamos que suplicar, apenas reivindicar nossos direitos. Somos trabalhadores da área cultural. Produzimos e divulgamos arte e entretenimento. Fazemos com que as pessoas riam e reflitam. E sonhem.
De qualquer maneira, é bom saber em que patamar está o artista nesta grade de prioridades. Na última.
A jornada ainda é longa. Não sabemos quanto tempo ainda teremos que esperar para que o montante chegue até o seu destino. Muitas sanções ainda terão de ser assinadas e publicadas no Diário Oficial dos Estados. E muitos protestos e abaixo-assinados terão de ser feitos para pressionar os alcaides de plantão para que cumpram a lei.
De uma coisa, temos certeza: ninguém nesta escalada de sandices tem a menor intenção de facilitar as coisas. Tudo o que puderem fazer para inviabilizar ou atrasar um decreto já assinado, não há dúvidas de que o farão.
A verdade é que não estão deixando Aldir Blanc descansar. Até depois de morto, continuará batalhando para zelar por nós e trazer algum alívio aos necessitados desta área tão vilipendiada.diques
