Apesar de visionário, Albert Camus foi prudente em seu romance de 1947: situou sua peste numa cidadezinha modesta da Argélia. Portanto, era uma epidemia e não uma pandemia que o obrigaria a enfrentar o problema literário em termos globais, o que, aliás, não era seu objetivo.
Mesmo assim, colocou todos os efeitos de forma brilhante: desmandos municipais, preocupação com o comércio, profissionais de saúde estressados, absurdos de todo grau & calibre e principalmente descrédito da população em relação à gravidade da infecção que se alastrava rapidamente.
Desnecessário dizer que esse episódio (mesmo de proporções localizadas) flerta com as condições atuais do mundo de hoje (e de sempre).
A História é clara em relação a isso: sempre que o mundo passa por uma devastação digna dos desastres bíblicos, muita coisa muda. Paradigmas são renovados. Estereótipos são exumados. A moral e a ética são encurralados contra a parede e a inevitável pergunta acontece: estará realmente a Humanidade um passo acima dos animais?
Aconteceu depois da peste bubônica, que assolou a Europa na Idade Média, matando um terço de sua população; aconteceu depois da II Guerra Mundial e o consequente Holocausto, e das duas bombas de Hiroshima e Nagasaki; aconteceu durante a onda de tuberculose que rolou durante a fase romântica do século XX; aconteceu depois da febre amarela; aconteceu depois da AIDS: escritores e dramaturgos evisceraram causas e efeitos que protagonizaram seus romances e peças de teatro.
Não por acaso, o absurdo tomou a linha de frente. Primo Levi, Thomas Mann, Elias Canetti, Bruno Schulz, Ionesco, Beckett, Arrabal e Adamov, cada qual dentro de seu estilo, instigaram os leitores e espectadores a pensar e refletir sobre os eventuais rumos que o mundo tomaria, levando em conta as lições da pandemia, fosse ela decorrente da vingança da Terra, fosse em virtude da cegueira de seus governantes.
No Brasil atual, há outra vertente que se associa a esse cataclismo de proporções assustadoras: estamos sendo governados por um psicopata, multiplicando o nonsense de forma geométrica, pois estamos entrando numa espiral de paranoia em virtude de não conseguirmos acompanhar os fatos pela razão.
Ainda argumentamos, analisamos, investigamos e unimos os pontos de forma equilibrada, ponderada e chegamos à conclusão de que seria essa a melhor maneira de resistir, acuar e mudar o atual estado de coisas.
Exemplo: ainda postamos notícias internacionais sobre a crítica ao governo do Bozo, tipo: Tribunal de Haia diz que … A ONU alerta, a OMS avalia negativamente etc..
Outro: unimos os pontos desta forma: Flávio Bozo tem ligações com a milícia; recebe grana e distribui grana para que ela construa prédios na periferia;
Marielle estava investigando essa putaria; Marielle foi assassinada; donde …
Ou seja: empregamos a lógica aristotélica mais básica para desvendar possíveis intenções.
Como a cosmogonia do Planalto resgata o caos, isso não se aplica.
Estaríamos preparados para criticar nomeações políticas e não de mérito técnico para determinados cargos, mas estamos despreparados para entender a lógica de colocar um analfabeto no Ministério da Educação; estamos despreparados para entender a lógica de colocar um racista na Instituição Palmares; estamos despreparados para entender a presença de um desmatador da Amazônia no Ministério do Meio-Ambiente e assim por diante.
O governo faz exatamente o inverso do que aprendemos na filosofia desde que nascemos. E isso nos desnorteia, pois temos dificuldade de colocar no lugar da lógica outra maneira de avaliar o que acontece.
Será interessante observar de que maneira dramaturgos e escritores desenvolverão seus temas pós pandemia. Continuar na mesma linha lógica e crítica de raciocínio seria um equívoco. Retomar o absurdo seria ineficaz. Embarcar em velhas teorias revolucionárias seria ingenuidade. O que faria Jean Genet numa hora dessas? E Brecht? Como enfrentar uma situação nova com criatividade, sem perder a pegada?
Só o tempo dirá. E tempo, convenhamos, é o que teremos de sobra: as salas de espetáculo só abrirão (na melhor das hipóteses) lá para o fim do ano ou apenas em 2021, com restrições de distanciamento, condições e requisitos especiais. Até lá, um aviso aos navegantes dramaturgos: renovem-se. O mundo nunca mais será o mesmo. Há um público novo surgindo, cansado de apanhar, provavelmente mais rigoroso e implacável, com certeza mais exigente. E desacostumado ou desestimulado de fazer raciocínios lógicos em função do caos em que vive.
