The Globe Theater

As lições de Shakespeare

The Globe Theater
The Globe Theater

Levando em conta que uma das atrações favoritas dos nativos na Inglaterra de meados do século 16 era se amontoarem na praça principal para degustar as hilariantes estripulias de um urso amarrado a um tronco, pode-se imaginar as dificuldades do jovem Shakespeare para produzir o que tinha em mente e enfrentar essa concorrência desleal.

Mas ele não se deu por vencido: desdenhando solenemente do conselho das musas de Dante, que lhe sussurravam no ouvido o clássico Lasciate ogni speranza voi che entrate, ele continuou escrevendo peças de teatro. Dramas e comédias. De fundo histórico ou querelas do cotidiano. Com base em notícias jornalísticas ou confusões de família. Fez um pouco de tudo. Até sonetos de amor.

Deixando de lado a questão acadêmica que examina se ele existiu e se é mesmo o autor de todo esse enorme acervo ou se havia um pool de autores (entre eles Christopher Marlowe) que (por um motivo obscuro) seriam os reais detentores dos direitos autorais e, por fim, se Shakespeare era um pseudônimo usado para assinar obras que poderiam ser consideradas politicamente problemáticas que deixariam os monarcas de então numa saia justa, vamos colocar assim: o teatro em que eram encenados seus espetáculos recebia dois tipos de plateias: o populacho, que se amontoava no andar de baixo, e que geralmente se acompanhava de galinhas e cabritos, fazia suas refeições lá mesmo e interagia com os atores, alertando-os de possíveis armadilhas e atentados pelas costas, e os nobres, que ficavam nas galerias.

É importante dizer que esse público eclético, refestelado no chão ou acomodado em poltronas acolchoadas de veludo, acompanhava as aventuras de príncipes, generais, mouros enciumados, reis & rainhas, bruxas proféticas e ninfas sem o menor problema. Para ambos, era um entretenimento. Cada qual com sua interpretação.

Como hoje suas obras são consideradas clássicas no mundo inteiro, mas ainda conservam uma inegável dose de incompreensão diante das abordagens filosóficas, surge a dúvida: os camponeses daquela época eram mais inteligentes que nós?

Provavelmente, não. Então, como decifrar esse enigma? Por que Shakespeare ainda é considerado difícil? Pela linguagem? Pelas traduções malfeitas? Pelo tom empregado pelos atores? Pelas direções elitistas? Por que ele não é popular?

A explicação talvez esteja no método da escrita do bardo, pois ele sabia quando provocar um suspense e como engrenar o encadeamento das cenas rumo ao clímax das histórias, sem desdenhar de um aprofundamento extremamente sofisticado dos temas. Desta maneira, conseguia agradar a gregos e troianos.

É bem possível que ele entremeasse conscientemente essas duas modalidades de escrita, colocando-as em camadas. Havia quem entendesse tudo porque tinham cultura e não se incomodavam com as cenas aparentemente melodramáticas; havia quem saboreasse apenas a parte mais prosaica e linear. E havia também uma terceira parcela da plateia (constituída de comerciantes e artesãos) que captava a intriga política palaciana, mas não chegava ao ponto de acompanhar com rigor as questões existenciais dos personagens.

Ou seja: Shakespeare sabia dosar com genialidade incomum essas duas vertentes da arte dramatúrgica, satisfazendo as necessidades dos vários tipos de públicos e a demanda de sensibilidade das diversas classes sociais.

Se isso era uma fórmula demoníaca, não importa. Só sabemos que funcionava.

Inúmeras experiências foram feitas nos últimos quatrocentos anos no sentido de destrinchar esse imbróglio, com poucos resultados positivos e milhares de fracassos.

Há os diretores que colocam o bardo num pedestal e insistem em desenvolver uma leitura extremamente elitista e complexa, com ênfase nos aprofundamentos existenciais e psicológicos, como se quisessem se comunicar apenas com os nobres das galerias da época. E há os que pretendem solucionar o problema de maneira simplória: focam na historinha, dialogando apenas com os camponeses instalados ao rés do chão do Teatro Globo.

Ambas as pretensões são equivocadas. Shakespeare era um todo. Impossível separá-lo em escaninhos dramatúrgicos estanques. No primeiro caso, o espetáculo perde o público mais simples, que se entedia e dispersa. No segundo, perde o público mais culto, que não gostará dessa pantomima tipo pastelão. Afinal, ele já tem a televisão que pratica isso tudo com um pé nas costas, na maior competência.

Esse impasse pode ser resolvido com o respeito que sua obra impõe, mas sem pentear demais o resultado. O elenco não deve exagerar na linguagem empolada. Os diretores devem descer do pedestal de cultos eruditos e contar a historinha com malícia e malandragem, batendo uma no cravo, outra na ferradura, praticando uma comunicação que alia entretenimento e formação, aliciando o público mais reticente.

Tarefa difícil? Sem dúvida, mas que compensa.

É um engano tentar popularizar Shakespeare à fórceps, tipo: príncipe da Dinamarca fica sabendo do assassinato do pai, entra em parafuso, dá uma de doido e mata todos. Muito sangue. Muita adrenalina. Convenhamos, uma chamada digna da Tela Quente ou da programação do SBT.

As lições de Shakespeare podem ser resumidas da seguinte maneira: escrever difícil, é fácil. Escrever fácil é que é difícil.

Esse aforismo deve ser assimilado por toda a trupe que pretende encenar suas obras, do diretor à camareira, dos atores ao boy que busca as marmitas.

O cardápio do bardo era diversificado e abrangente: os temas contemplam dor, ciúmes, traição, perda, injustiça, rivalidade, ignomínia, a desonra, a usura, a crueldade, o desejo, a vingança.

Seja qual for a abordagem, o público deve ter acesso a todos os elementos do processo. Para montar o quebra-cabeça, ele tem que ter (sem trocadilho) todas as peças.