Desde que os textos de teatro começaram a ser publicados em livro, houve muitas reações diferentes por parte dos leitores. Os leigos, mais acostumados a ler romances e novelas, estranharam o formato: apenas diálogos encimados pelo nome do personagem entremeados por descrições em italic do cenário e da maneira como esses mesmos personagens tinham que agir de acordo com o autor.
Por outro lado, os que sabiam de antemão do que se tratava, ficaram felizes de ter acesso a peças que ainda não tinham sido montadas na região onde moravam, locais ermos que provavelmente nem possuíam teatros.
Os diretores mais radicais, no entanto, foram duros: disseram que um original publicado não era teatro. Se estavam ou não legislando em causa própria, é tema para reflexão.
Nestes tempos de isolamento, com as salas de espetáculo fechadas, só nos resta ir até a estante de nossa casa para relermos autores famosos e garimparmos novos significados em textos clássicos que nos emocionaram ou que ainda não conhecemos, para pelo menos termos um aperitivo do que imaginamos que possa ser uma montagem nesta vigília imposta pela pandemia.
Diante do estranhamento dos leigos, várias experiências foram feitas por alguns escritores e dramaturgos. O americano John Steinbeck, por exemplo, inventou a novela-teatro, substituindo as rubricas por longas narrações nas quais embutia todas as referências necessárias para que o leitor pudesse entrar no clima com mais informações. Foi o que fez em Ratos e Homens e O Filho Desejado, duas de suas peças para o palco onde o leitor menos preparado tinha acesso às descrições pormenorizadas do caráter e personalidade dos personagens antes e depois dos diálogos propriamente ditos.
Na maior parte dos casos, contudo, entende-se perfeitamente a reação dos diretores. Um texto é apenas o pontapé inicial a partir do qual a concepção da montagem pode ser estudada e concretizada segundo regras artísticas que se somam à atuação do cenógrafo, do figurinista, do músico que compõe a trilha sonora, do preparador de voz e corporal, chegando finalmente no diretor do espetáculo, que imprime sua marca no andamento e assina a elaboração do projeto segundo sua própria percepção da mensagem do autor.
Dizem que a primeira atitude que um diretor toma ao receber um original é atirar na lata do lixo todas as rubricas, mas pode ser boato.
De qualquer maneira, a publicação de peças de teatro em livro segue a mesma diretriz da publicação de partituras de música. Tanto o ator quanto o músico têm acesso aos mais variados exemplos de criação, mesmo que fria e isenta de adereços, uma obra ainda no osso, para que saibam o que está sendo feito em países tão distantes quanto a Noruega ou Finlândia, por exemplo.
As rubricas variam de acordo com a idiossincrasia de cada autor. Em Ibsen, elas eram enormes, principalmente na mudança de atos, onde o cenário era totalmente refeito. Samuel Beckett era tão meticuloso nas informações que dava aos diretores que chegava ao cúmulo de metrificar em centímetros a distância que cada personagem precisava guardar para que o efeito desejado fosse satisfeito cena a cena.
A maioria dos especialistas são unânimes em afirmar que tudo isso é necessário para que se saiba as intenções do autor, mas não necessariamente precisam ser seguidas à risca, da mesma forma que as partituras de música são interpretadas por cada regente à sua maneira. O resultado final de Quadros de uma Exposição, por exemplo, é completamente diferente se regido por Carlo Maria Giulini e Pierre Boulez e nunca saberemos o que Modesto Mussorsky acharia delas, da mesma forma que as versões de Toda Nudez Será Castigada, de 1965, dirigida por Ziembinski, guarda pouca semelhança com a de Paulo de Moraes de 2007.
Nelson Rodrigues, aliás, não subverteu apenas a temática, mas introduziu suas obsessões mais depravadas numa linguagem coloquial que espantou a burguesia de então que ia ao teatro vestida com estolas de peles e smokings impecáveis.
Mas que ninguém se engane: ele estava longe da unanimidade burra. Em poucas ocasiões, Sabato Magaldi, Yan Michalski, Paulo Francis e Edélcio Mostaço concordavam nas opiniões sobre suas peças.
Seus textos eram abertos e porosos o suficiente para que cada diretor pudesse deitar & rolar em suas interpretações. Alguns optavam por representações realistas, outros tinham uma visão burlesca de suas peças e um terceiro grupo trafegava entre o picaresco e o paródico, como fez Antunes Filho em Paraíso Zona Norte (fusão de A Falecida e Os Sete Gatinhos), numa pegada clownesca quase circense. E, aliás, até hoje é assim.
Portanto, é verdade, o original de uma peça ainda não é teatro. As rubricas não devem ser encaradas como recomendações obrigatórias, são apenas sugestões a serem trabalhadas de acordo com a visão subjetiva e o talento de cada diretor.
Talvez a melhor edição impressa de uma peça de teatro seja a de Navalha na Carne, de Plínio Marcos, publicada em 1969, pois inventou uma forma nova de apresentar o texto. Com layout do artista gráfico Pedro Bandeira, que mais tarde se consagraria como um dos melhores e mais prolíficos autores de literatura infanto-juvenil do país, ele bolou uma arquitetura instigante: colocou as falas ao lado da fotografia dos atores em plena representação. Ruthineia de Morais, Paulo Villaça e Edgard Gurgel Aranha (na versão paulista) davam a impressão de estar em plena dinâmica, brigando, se consolando e se consumindo dramaticamente no palco. Com isso, os diálogos assumiam uma dimensão jamais vista em livro. Aos curiosos, vale lembrar que essa versão impressa foi reeditada em forma de fac-símile em 2005.
