O Coronavírus e a mídia alternativa

A pandemia do coronavírus (no Brasil e no mundo) fechou as salas de espetáculo como medida preventiva para que a doença não se espalhe com maior rapidez. Com isso, os artistas de teatro se viram diante de uma situação inusitada: o que fazer para continuar produzindo (mesmo que circunstancialmente) em duas dimensões?

Como todos sabem, a principal diferença entre o cinema e o teatro é a possibilidade de criar no palco a ilusão de realidade com os atores e atrizes presentes em carne & osso. Essa terceira dimensão é o referencial básico.

Várias atitudes foram tomadas pelos artistas, sendo que a principal delas é a difusão de peças, esquetes, lives ou monólogos em plataformas e redes sociais da internet. Uma peça de teatro filmada ainda é teatro? Sim e não. Sim no sentido de que as marcações são as mesmas e não porque a representação à distância lhe dá uma configuração artificial e anfíbia. Ao perder a terceira dimensão, o audiovisual também perde a perspectiva e a profundidade, características essenciais do teatro.

Isso é ruim? Não necessariamente. Afinal, há um precedente que pode nos fazer refletir sobre tudo isso. Em 1891, o pintor Paul Gauguin, cansado das futilidades acadêmicas europeias, das regras que norteavam o mercado de artes plásticas e da burguesia ociosa, se mandou para o Taiti e estabeleceu-se definitivamente na Ilha das Marquesas.

Lá, ele deparou-se com uma nova realidade. Os nativos lhe ensinaram um postulado essencial: arte e vida são a mesma coisa. Para eles, comer, trepar, dormir, reverenciar os deuses e esculpir estatuetas em madeira fazia parte do cotidiano. Naquelas ilhas, ninguém se distinguia por ser artista, pois todos o eram. Isso mudou tudo: pra começar a conversa, Gauguin percebeu que não existia vaidade, ninguém se achava superior ao vizinho, ninguém se sentia ungido pelo destino por ter habilidades diferentes. Por isso, todos eram iguais, todos se respeitavam e conviviam amigavelmente. Diante disso, o pintor francês estabeleceu um princípio fundamental: Primitivos somos nós, que competimos um com o outro até a morte. Os europeus jamais irão entender esse ensinamento, porque são burros e ignorantes.

E passou a mimetizar a arte primitiva dos nativos. A primeira coisa que mudou foi a ausência de profundidade. A perspectiva, desenvolvida a partir de Masaccio ainda na Renascença italiana, foi pras cucuias e suas telas começaram a ficar chapadas, provavelmente em decorrência dessa filosofia democrática do cotidiano, que não discernia os artistas do povo.

Toda mudança social, com o tempo, passa a ter um objetivo. Todo ritual pode e deve se reciclar e é justamente nos momentos de crise que a criatividade resolve problemas e descobre formas novas de se comunicar.

Portanto, mesmo que circunstancialmente, a arte do teatro pode se renovar abrindo uma nova perspectiva nessas duas dimensões a que foi enclausurada.

Talvez esses ensinamentos de Gauguin possam ser agregados paulatinamente a uma nova versão do teatro. É provável que artistas se adequem a uma maneira inédita de enviar suas mensagens.

O que é inadmissível é ficar eternamente nesse standby para ver quando a situação possa voltar ao normal.

As primeiras manifestações deste novo approach já estão online em plataformas especiais e inclusive neste site, que não parou de produzir em momento algum.

Se irão vingar e como, já é uma outra história. Estamos apenas no começo do isolamento, artistas sofrem com a falta de contato com as plateias e se ressentem de não conseguir um retorno financeiro, mas nada muda de repente, é apenas uma fase, o primeiro passo para uma variante artística que pode beneficiar tanto os artistas quanto o público.

Uma peça de teatro filmada ainda é teatro? Quem poderá dizer! E se esse novo trabalho fosse feito diretamente para ser veiculado na mídia alternativa?