
Quando Chico Buarque compôs esta música, em 1974, a letra ironicamente visava uma figura em especial, o general Geisel, e por extensão toda a ditadura militar. Hoje, se cantarem esta mesma canção, os artistas de teatro terão um espectro muito mais abrangente, pois são vários os elementos que estarão embutidos no “você”.
Inicialmente, o presidente da república, um beócio genocida inimigo da arte e de toda a Nação; em seguida, a secretária da cultura, Regina Duarte, que trabalha contra a classe artística; depois, o prefeito Crivella, que detonou todos os editais de financiamento para obras de teatro; e, por fim, o coronavírus, que fechou todas as salas de espetáculo em virtude da pandemia.
Como se vê, o cardápio é amplo o suficiente para que não tenhamos ilusões em curto prazo. Jamais poderíamos imaginar que o Brasil viveria uma situação pior que nos tempos onde o estado de direito foi abolido do nosso cotidiano por decreto.
Na verdade, a classe de teatro está vivendo sob um AI-5 camuflado que mantém sob rédea curta todas as instituições republicanas, sem contar com o emburrecimento paulatino que transformou 1/3 da população em autênticas máquinas de ódio nazifascistas e as igrejas evangélicas que conseguiram o inimaginável: associar-se às milícias e ao poder mais inescrupuloso em nome de Deus.
Quando o escritor José Saramago publicou seu romance “Ensaio sobre a Cegueira”, acreditava estar fazendo uma metáfora, mas, pelo que vemos no Brasil de hoje, estava redondamente enganado. Ficção alguma será mais perversa do que nossa realidade.
Perto de Bolsonaro, Ricardo III era um ditador aprendiz, amador e singelo que, no meio de uma batalha, ainda tinha tempo de forjar frases de efeito, tipo “Meu reino por um cavalo”. Não é à toa que o jornal inglês The Economist batizou nosso presidente com a alcunha de BolsoNero, piada que com toda certeza ele, por ser ignorante funcional, não entenderia se soubesse ler.
No fundo, estamos assistindo a uma comédia boulevard interpretada exclusivamente por canastrões. Segundo Brecht, o teatro de boulevard é um gênero onde, junto ao casaco na portaria, você deve deixar também o cérebro.
Para o bem ou para o mal, o Brasil é ciclotímico: nem a ditadura nem a democracia dão certo. Portanto, vamos pluralizar a letra de Chico:
Apesar de vocês
amanhã há de ser
outro dia.