Gabriel só quer ser ele mesmo

GABRIEL SÓ QUERIA SER ELE MESMO | REFLEXÃO SOBRE ESTEREÓTIPOS DE GÊNERO

Gabriel só queria ser ele mesmo é um necessário espetáculo de Renata Mizrahy que conta com um excelente elenco, muito integrado, lembrando positivamente trabalhos de grupos de teatro e não a impessoalidade que muitas vezes acomete os espetáculos de elenco. Há uma química boa entre eles.

A peça não chega a surpreender, nem a sair de uma estrutura cênica multicolorida, cantada, típica do teatro infantil. No entanto, quando chamo de necessária, é porque o tema que dá origem à peça é muito caro ao momento em que vivemos. Infelizmente, um momento de retrocesso de valores fundamentais como a liberdade. E a perda da liberdade deve ser contestada em todos os níveis. Liberdade é fundamental para se viver da maneira que melhor lhe aprouver.

Gabriel só queria ser ele mesmo, mas o “mundo” não deixava. Queria dançar balé, mas balé era “coisa de menina”, queria fazer poesia, mas poesia era “coisa de menina”. Mas ele também queria jogar bola, xadrez, brincar com os colegas. Em suma, ele queria ser livre para fazer o que bem entendesse. A autora capta bem esse estranho mundo determinista que elege papeis predefinidos sobre o que é ser homem ou mulher, sobre como deve se vestir um menino (azul?) ou uma menina (rosa?), sobre a quem pertence a “sensibilidade artística”. E que “pertencimento” é esse que é determinado por um adulto? Partindo desse ponto, as escolhas de Renata são absolutamente acertadas, talvez, até na opção de não ousar muito cenicamente, pois a ousadia maior já se encontra no que é dito no texto. Um menino de oito anos que gosta de dançar balé e escrever poesias, ao mesmo tempo em que joga futebol e toca rock, não há nenhum problema nisso, só na cabeça dos outros.

Tudo começa no aniversário de nove anos de Gabriel/Paulo Verlings, que teme que ninguém apareça em sua festa por causa dos inúmeros questionamentos feitos durante o ano na escola. A partir daí, a história é contada em flashback, mostrando os momentos em que tentaram impor a ele comportamentos baseados em estereótipos de gênero. Na escola onde estuda, ele é constantemente desencorajado a fazer atividades consideradas como “coisas de menina”. A peça transcorre com o público se perguntando até onde ele vai aguentar aquela situação.

A trilha sonora reúne canções originais, com letras de Renata Mizrahi e músicas de Marcelo Rezende. No elenco, estão Paulo Verlings, Aline Carrocino, Marcos França, Nathália Colón, Udylê Procópio e Clara Santhana, que vivem diferentes personagens. A direção é da própria Renata e de Priscila Vidca e a direção musical de Marcelo Rezende (um craque, que faz uma direção musical criativa e que explora as habilidades dos atores).

Segundo Renata, a ideia surgiu depois de assistir ao documentário americano The Mask You Live In, filme, que mostra como, desde a infância, os garotos começam a brigar se alguém lhes diz “Quem aqui é a mulherzinha?”, evidenciando como o não reconhecimento da masculinidade parece torná-los fracos, como sinônimo de “menininhas”. E ser “menininha” é considerado insulto. A hipermasculinização e hiperfeminilização se impõem às crianças desde o começo da vida. Até os brinquedos que são destinados para um ou para o outro são reflexos de uma tentativa de simplificar o mundo baseado em estereótipos de gênero, cuja origem não passa de mera construção social. Interessante a ideia de provocar uma reflexão sobre educação infantil, sobre o quanto deixamos as crianças serem quem são, não permitindo que uma conduta social automatizada as oprima e as transforme em estereótipos de masculino e de feminino.

A encenação se constrói a partir do jogo entre os atores que se revezam em cena, criando diversas dinâmicas. As músicas interpretadas pelo elenco são muito eficientes, fazendo parecer que aquilo tudo é muito fácil. Tudo ao vivo, sem que haja interrupção da cena para que a música se imponha (como acontece em diversos musicais geralmente de forma bastante gratuita). O cenário de Mina Quental é todo desenvolvido em cubos coloridos e “paredes” de pequenos quadrados que sugerem mudanças de ambientes, como o apartamento de Gabriel, a sala de aula e o pátio da escola. Ana Luzia Molinari assina a iluminação e Flávio Souza assina um figurino colorido e irreverente.

O espetáculo atualmente está em turnê pelo interior do estado do Rio de Janeiro.