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RIOBALDO | ALGO DE NOVO NA DRAMATURGIA NACIONAL

Grande Sertão: Veredas é uma obra monumental e representa toda uma concepção literária que ainda não foi absorvida em sua totalidade pelos leitores brasileiros. Dizem que sua dificuldade está na linguagem usada por Guimarães Rosa na construção da história. Dizem que ela é sofisticada. Dizem que há arapucas semânticas. Dizem muitas coisas, o que só reforça a ideia de que não conhecemos nosso país, pois a maneira que o autor optou é extremamente coloquial, uma contação, ele proseia ao pé do fogo, como se um antepassado nosso resolvesse nos apresentar episódios de sua vida, floreando aqui & ali de acordo com sua imaginação, misturando fatos com boatos.

Ninguém discute a maneira coloquial com que personagens urbanos, moradores de cidades cosmopolitas, se expressam, mas o interior do Brasil ainda nos causa espanto devido às suas locuções recheadas de poesia, neologismos, frases invertidas, adjetivos sinistros e construções bizarras.

É dessa forma que Guimarães contou a história de Riobaldo e Diadorim, acrescentando a sensualidade bruta do sertão ao nos apresentar o amor entre dois homens e seus atribulados conflitos entre jagunços, sertanejos, capitães do mato e coronéis na disputa pelo poder.

O livro é caudaloso, um compêndio universal que traz embutidas questões existenciais e religiosas e a relação do homem com Deus e com o diabo.

Se vocês acham que seria humanamente impossível transformar toda essa cosmogonia num monólogo com um ator sentado num banco, uma boa notícia: o impossível aconteceu.

Depois de seis anos de árduo trabalho entre o ator Gilson de Barros e o diretor Amir Haddad, nasceu Riobaldo, uma adaptação do clássico de Guimarães Rosa para o palco que narra a travessia do personagem pelas veredas do sertão geográfico e existencial.

O trabalho excepcional de Gilson não está apenas na interpretação, mas na difícil tarefa de aparar as arestas de um texto espinhoso que valoriza cada detalhe e toda e qualquer nuance estilística (à maneira de Joyce e Proust), traduzindo o essencial para que a plateia usufrua da prosa oral do autor sem percalços, minimizando as dificuldades da fala coloquial regional para o público não versado.

Essa tradução, no entanto, não trai o original, pelo contrário, os termos e expressões são apenas sublinhados através de complexos artifícios miméticos empregados pelo ator na contação da história. Ele não substituiu ou atenuou as palavras originais, apenas pronunciou-as de acordo com um código secreto e individual, pois cada ator tem seu próprio método de se comunicar.

Gilson e Haddad optaram pela simplicidade, o que só aumenta a ousadia dramatúrgica. Um senhor de barba, já contado em anos, recorda alguns casos de sua juventude quando sua masculinidade foi posta à prova pelo amor a outro homem em meio a inúmeras disputas entre jagunços onde a testosterona domina a cena. O tom agreste dá o pano de fundo. Um sertão bruto e selvagem. Homens dominados pelo ódio, mulheres caladas, submissas e encantadoras, ordens vindas de cima sem que se saiba direito de onde partiram e com qual objetivo.

Riobaldo é teatro na veia, um Guimarães pocket, algo de novo na dramaturgia nacional; sem adereços, sem cenografia e sem figurinos, mas com uma luz abrasiva pilotada pelo experiente Aurélio de Simoni.

Em cena, Gilson de Barros administra o tempo e o espaço como se fosse um demiurgo regendo o sol do sertão, uma espécie de deus onisciente que acompanha com ternura passo a passo as andanças de suas criaturas lá embaixo, nas veredas de um mundo lancinante e despreparado para conceber uma lógica formal do cotidiano.

Outro crédito que tem de ser dado a Gilson é que jamais caiu nas armadilhas fáceis que normalmente acontecem na interpretação das obras de Guimarães: não mescla vozes tonitruantes com outras melífluas, o que caracteriza o tradicional estereótipo atribuído aos personagens mineiros; não titubeia ao dar seguimento a um episódio, conta direto; não abusa de cacófatos; sabe intercalar os vários segmentos pinçados da narrativa, criando links magníficos entre a ação e a reflexão.

A “língua” de Guimarães é a nossa língua, o tom coloquial é nossa maneira de contar um fato que nos emocionou durante a vida. Se não conseguimos entender todas as suas nuances, é preciso perseverar. Mergulhar nesse universo imenso de angústias e redenção, é a melhor forma de estudarmos o nosso país e agregar símbolos e metáforas que nos ajudarão a compreender essa vastidão de mundos que existem a nosso redor.

Gilson de Barros fez a sua parte. Agora, devemos fazer a nossa.

 

Riobaldo. Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto – Rua Humaitá, 163 – Humaitá, Rio de Janeiro – RJ, Tel: (21) 2535-3846.

De 7 a 30 de março – sexta a segunda – sexta, sábado e segunda, às 20 horas, domingo às 19 horas. Classificação etária indicativa: 16 anos. Duração 70 minutos.


Comentários

Uma resposta para “RIOBALDO | ALGO DE NOVO NA DRAMATURGIA NACIONAL”

  1. […] Para ler a crítica de Furio Lonza à peça Rioblado, clique aqui […]