COMO TODOS OS ATOS HUMANOS | FANI FELDMAN: UMA JOKER DE SAIAS

Seria muito fácil distinguir as vozes que ecoam do subtexto de Como Todos os Atos Humanos: existe a narrativa urbana & onírica de Murilo Rubião; há resquícios do humor de Julio Cortázar; mas, se procurarmos bem, vamos encontrar também a alucinação epilética de Hilda Hilst em sua forma mais avançada.

Por que seria fácil? Porque representaria um escapismo indigno, uma maneira de se escudar numa hipotética bibliografia para estabelecer parâmetros de avaliação de uma história absolutamente surreal que se vale de parábolas e símbolos encruados e escapa pela tangente ao tentar ser domada. Portanto, esse caminho seria um engodo e nada resolveria, pois a peça é muito mais que isso e é necessário respeito (e imaginação) ao resenhar algo tão sublime.

Fani Feldman montou um monólogo que começa com teatro físico (posturas, caretas, caminhadas circulares, risadas esganiçadas, esgares, silêncios). O público ainda não sabe, mas todo esse arsenal de artifícios é o resumo pantomímico do que se verá em seguida. Logo, tudo entra em stand by e a personagem mergulha numa série de confissões estarrecedoras, culminando no parricídio que afronta a realidade de forma assombrosa e surpreendente.

Afinal, de onde Fani (intérprete e dramaturga) tirou todo esse horror subterrâneo e latente para que a personagem se submeta com tanta precisão a contar sua sina e conquistar a plateia apesar de remar em águas tão profundas e lodosas? Qual a gênese disso tudo?

Segundo a sinopse, ficamos sabendo que há o imbricamento de três autores e três (ou mais) histórias. Os escritores são Nelson Coelho, Marina Colasanti e Giorgio Manganelli. Mas a estrutura é ainda mais sofisticada: no intuito de emoldurar tudo com uma plástica sinistra e até certo ponto inquietante, a construção do espetáculo faz referências visuais aos pintores Francis Bacon, Edvard Munch (particularmente O Grito) e René Magritte.

O resultado é uma obra-prima, mas o texto é apenas o pontapé inicial de uma viagem sem volta onde a atriz modula ao bel-prazer conceitos e atitudes que normalmente nos pareceriam absurdos, perversos & bizarros se ela não agregasse o tom exato para que o público se enternecesse com sua fatalidade de uma filha inexistente frente a um pai subjugador. Aos poucos, percebe-se que esse ato é simplesmente a busca por sobrevivência, compatível a todos os atos essencialmente humanos.

Outra referência obrigatória vem por analogia: ao furar os olhos do pai (antes de matá-lo), a personagem está apenas antecipando o cruel fato de Édipo ter-se cegado depois de tantas barbaridades que andara cometendo. Deu-lhe uma ajudinha, vamos dizer assim, talvez antevendo que ele poderia hesitar na hora H.

Fani, no palco, é uma festa: transmuda-se para outra região da alma onde tudo é possível; pratica metamorfoses vertiginosas; insurge-se contra o destino e consegue (ao longo de todo o espetáculo) valer-se como mulher, como artista, como ser humano.

Sua voz é a voz de todas as mulheres que se viram impotentes diante de um patriarcado insolente e hipócrita e resolvem agir por conta própria para fazer justiça: uma Joker de saias que também canta e dança e esbanja a ironia voltairiana de Nelson Coelho, as sacadas filosóficas do escritor italiano de vanguarda Giorgio Manganelli, partindo das personagens criadas por Marina Colasanti.

Os fios dessas referências são encordoados de tal maneira que o texto final praticamente se torna uma obra original de Fani, com todo o respeito aos escritores citados.

Como Todos os Atos Humanos é um trabalho que estreou em 2016 em São Paulo, depois de três anos de construção, numa verticalização da pesquisa do grupo Cia. do Sopro, iniciada com A hora e Vez, também em cartaz e já criticada (e elogiada) nesta edição

A direção precisa, enérgica e pontual é de Rui Ricardo Diaz, que soube como ninguém preparar as marcações exatas para que Fani desse o pulo para o universal, partindo de um fato caseiro (como diria Tolstoi); a preparação é de Antonio Januzelli, a iluminação é de Osvaldo Gazotti, que faz um bate-bola espetacular com a atriz em cena, num diálogo de arrepiar, o cenário e o figurino são de Daniel Infantini e a produção é da própria Fani Feldman.

Um espetáculo imperdível que acredita na magia do teatro para que a Humanidade suba um patamar rumo à redenção social e artística. A Cia. Do Sopro faz jus a seu nome, que é até modesto: é mais que um sopro, é uma lufada de ar fresco que oxigena os palcos brasileiros.

 

Como Todos os Atos Humanos. Teatro Poeirinha, r. São João Batista, 104, Botafogo – Rio de Janeiro RJ. Tel.: 21 2537-8053.

De 3 de março a 9 de abril – terças, quartas e quintas, às 21 horas. Ingressos R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia). Classificação etária indicativa 16 anos. Duração 55 minutos.