Quando se faz uma breve pesquisa sobre o suicídio no Google, em menos de um segundo, encontramos mais de 47 milhões de páginas falando algo a respeito do assunto. Muitos milhões de opiniões, outros tantos milhões de repercussões de pesquisas científicas bastantes sérias e definitivamente bem embasadas, e, claro, muitos outros milhões de bobagens sem tamanho. Muitos dos grandes personagens icônicos do cinema e do teatro têm um típico comportamento suicida, seja lá o que for isso, mas que fascina e intriga a mente humana e as bilheterias. Portanto, um tema espinhoso, capaz de percorrer múltiplos caminhos e que não oferece respostas certas ou erradas.
No caso da peça Se não agora, quando? fica claro, positivamente, que não há um esforço de tese de produzir um tipo de resposta ideal para a construção de um caminho que leve a suicida em potencial a desistir de seu intento. Mas a peça se propõe a colocar a mão numa “cumbuca” pra lá de complexa, já que tenta ser vendida como uma comédia dramática, o que definitivamente não é. Ela apresenta uma personagem em um estado de angústia tal que gera alguns momentos risíveis, o que só denota o quão patético podemos ser quando colocados diante de uma lupa, que é exatamente o que a peça faz: ela coloca um personagem X, uma mulher absolutamente desiludida, fracassada, incapaz de dar a famosa “volta por cima”, que diante de um mórbido fascínio pelo suicídio de uma famosa qualquer acaba percebendo que aquela pode ser a única solução que lhe resta. Definitivamente, é uma peça difícil, e isso é um elogio, peças fáceis só servem para comer pizza no final, portanto são peças úteis para os donos de restaurantes e só. Essa é uma peça instigante, onde o desejo de suicídio parece motivado pela solidão e pelos fracassos profissionais e pessoais, não necessariamente nessa ordem. No entanto, a vida, em sua complexidade, leva à personagem e seus múltiplos vizinhos a uma teia de relações que acabam por dar sentido à vida daquela mulher, sem que ela sequer perceba. Aquelas vidas acabam dando um motivo a cada dia para o adiamento de ato tão decisivo quanto o suicídio.
Acompanhando de sua janela diariamente a vida dos vizinhos do prédio em frente, ela acaba se retroalimentando do que acontece com eles, até que um novo morador em particular lhe toma toda a atenção, levando-a a compartilhar com ele até mesmo a moça da faxina. Porém, o suicídio da faxineira interrompe esse laço. Suicídio, aliás, que não se explica, parece ocorrer na casa do patrão só para ela poder assistir e deixá-la mais abalada, e isso depois de conversas em que supostamente essa faxineira muito lhe ensina sobre o valor da vida. Fica um pouco gratuito diante de uma cadeia de não acontecimentos que por si só já seria interessante. Assim como a cena do aniversário (de modo bem opinativo não sei até que ponto aquela longa intervenção com a plateia acrescenta algo à peça, apesar de trazer, de forma bem interessante, tanto a luz quanto o som para dentro da cena como personagens também).
Marcélli Oliveira, autora, e também atriz do espetáculo, parte da premissa de que “assuntos como depressão, solidão e suicídio precisam deixar de ser um tabu para se tornarem assuntos naturais, tratados de forma cuidadosa e respeitosa”, no que ela tem toda razão. Mas no que toca à peça em si, fica difícil entender o que leva a o quê. Os porquês não estão lá muito claros, e no caso dessa peça, parecem necessários que alguns pontos de interrogação sejam respondidos. Uma atriz, que mora sozinha que vem do interior para brilhar, mas fracassa. Algo bastante comum, algo que é capaz de por si só levar a um estado depressivo, mas a solidão exacerbada se deve já a essa depressão? Ela é anterior a sua vinda para a cidade? A depressão como doença exige medicação. Ela os toma? Tomou algum dia? Afinal quantos fracassos vivemos nos fazem pensar em suicídio? Quantas histórias como essa conhecemos e quantos optam por um fim definitivo? Ainda que ela desista no final (aliás, numa cena simples, mas de um lirismo para se guardar na memória) fica o desejo de conhecer mais essa mulher, de saber mais sobre suas motivações, de responder mais perguntas. O grande trunfo da peça é justamente a vida dessa mulher, que podia ser mais generosamente escancarada para o espectador.
Na função atriz, Marcélli se entrega de corpo e alma a um desenho de espetáculo que parece ser de seu amplo domínio, com escolhas muito bem-feitas pela direção, que soube explorar o melhor potencial da atriz e também flertar com as possibilidades cênicas criadas pelo “diálogo” estabelecido entre a luz e o cenário. Mas a técnica de dança que dá o tom do espetáculo em seu início se perde ao longo do espetáculo. A intervenção com o público também parece um pouco ostensiva, exagerada. A peça quase se perde entre um tom vigoroso, outro, intimista, mais distanciado, e um terceiro incompreensivelmente eufórico. Talvez mostrar a bipolaridade da personagem seja uma opção. Afinal, pensar nas motivações que levam alguém ao suicídio é sempre algo impreciso. Inevitável. E qualquer outra coisa é outra coisa. Mas excesso de dubiedade mais confunde do que ajuda o público a entender o que está acontecendo.
A direção de Se não agora, quando? é de Leonardo Hinckel. Luz (Paulo César Medeiros) e o cenário (Marieta Spada) dialogam bem, quando muito, complementam um ao outro. Poderiam até ser mais e melhor explorados. As molduras que demarcam a luz e o campo de atuação são um verdadeiro achado. O figurino (Tiago Ribeiro) tem a eficiência necessária para o tipo de movimentação da atriz e a trilha sonora/música original (Leandro Castilho) poderia ser melhor aproveitada.
Se não agora, quando? Sesc Tijuca – Teatro II – Rua Barão de Mesquita, 539 – Andaraí – Rio de Janeiro RJ. Tel.: (21) 3238-2164 / 2428 / 2139.
7 a 16 de fevereiro / 6 a 15 de maço, sextas a domingos, às 19 horas. Ingressos R$ 30,00 (inteira), R$ 15,00 (meia), R$ 7,50 (associados do SESC). Duração 60 minutos. Classificação etária indicativa 16 anos.
