Rui Ricardo Diaz é um ator excepcional. Interpreta todos os personagens do conto de Guimarães Rosa sem hesitar, modula a voz e a postura em metamorfoses singulares, por vezes com leveza, noutras assumindo uma truculência feroz. As mudanças se dão em milésimos de segundo, pois os diálogos são de tal forma abruptos que ficamos imaginando que tipo de exercício de respiração ele teve que fazer (e por quanto tempo) no intuito de conseguir dar seguimento ao enredo sem titubear, sem perder o fôlego.
A caracterização dos personagens é minimalista: através de um leve alçar de sobrancelha, um estrabismo bem colocado, uma perna sendo arrastada ou o franzir discreto da testa, conseguimos intuir a personalidade, a gênese e também o destino de cada indivíduo que adentra o palco.
É notável o ritmo que o espetáculo adquire com esse artifício: as cenas se sucedem de forma incomum e o excêntrico & o bizarro se amalgamam na construção dos diversos climas que a trama exige, num encordoamento feito por um mestre no ofício.
Isso atenua consideravelmente as dificuldades sempre presentes nas histórias do autor. Pois, convenhamos, o Guimarães não é fácil. Sua prosódia do homem comum do interior do sertão pode ser algo insólito para quem se aproxima pela primeira vez de seus textos, obrigando o leitor (e, no caso, o espectador) a usar a imaginação de maneira vertiginosa.
Mas há um porém. Teoricamente, adaptar um conto para o teatro é mais fácil do que um romance. Teoricamente, é mais simples transformar em monólogo um texto narrado na primeira pessoa. Sabemos, contudo, que a teoria na prática é outra. A questão é simples: tudo depende do fio condutor, seja um conto ou um romance, seja ele contado por um narrador onisciente ou na primeira pessoa.
E A Hora e Vez de Augusto Matraga, numa concepção acadêmica, pode até ser considerado um conto, mas na realidade está mais para uma saga. Acontecem tantas coisas, tantas reviravoltas, tantas peripécias que, no andar da carruagem, o fio condutor pode entrar por descaminhos & veredas tão inóspitas que o espectador corre o risco de se perder. Seria necessário muito mais do que um fio de Ariadne para nos guiar rumo à saída do labirinto.
Outras histórias do Guimarães Rosa também foram adaptadas para o palco, mas eram mais simples. A sinopse de Meu Tio o Iauaretê, por exemplo, poderia ser resumida numa linha curta: um homem que se transforma em onça. A do conto Sarapalha caberia em três palavras: um triângulo amoroso. Se fôssemos arriscar uma sinopse para A Hora e Vez, ela não teria menos páginas que o próprio conto.
Ciente disso, com o objetivo de amenizar esses percalços e fazer com que a fluência da narrativa adquira contornos mais redondos, o ator incrementou sua adaptação com canções icônicas que se metem nos interstícios da trama como se lufadas de ar fresco oxigenassem os links entre os episódios.
Guimarães é palavroso no bom sentido. Antes de contar qualquer história, como todo mineiro que se preza, ele alicerça tudo com uma argamassa de precauções (concretas e/ou semânticas) com a finalidade de ser entendido pelo interlocutor. Rui Ricardo Diaz se vale dessa aluvião de termos, cacoetes, acentos, dialetos, onomatopeias e cacófatos para fazer com que a plateia se torne cúmplice do que conta, às vezes num tom intimista, noutras através de um turbilhão de palavras que saem de sua boca como lavas escaldantes de um hipotético vulcão.
Essa usina experimental, contudo, vem sem adereço algum. Não há cenário, o figurino é espartano e a luz é discreta, como se não quisesse ofuscar a grandiosidade do texto. O que vemos é um Guimarães no osso, direto, sem firulas, um típico teatro de resistência dos dias atuais.
Nessa empreitada hercúlea, Rui Ricardo Diaz está só apenas no palco. Por trás, recebeu de mãos profissionais o alento necessário para a concretização de um espetáculo que já nasce clássico. A direção e o figurino são de Antônio Januzelli; a iluminação, de Osvaldo Gazotti; a pesquisa de vocábulos regionais é assinada por Joaquim Dias da Silva, o estudo de teatro físico é de Luis Louis e a produção recebe a chancela de Fani Feldman.
A Hora e Vez. Teatro Poeirinha – R. São João Batista, 104 – Botafogo, Rio de Janeiro RJ. Tel: 21 2537-8053
28 de fevereiro a 12 de abril – sextas e sábados, às 21 horas, domingos, às 19 horas. Ingressos R$ 60,00 (inteira) e R$ 30,00 (meia). Classificação etária indicativa 16 anos. Duração 55 minutos. Capacidade 60 lugares.
