Folhas de vidro

FOLHAS DE VIDRO | A FARSA QUE HERDAMOS AO NASCER

Dizem que família é o agrupamento de pessoas que se odeiam justamente por terem o mesmo DNA, pois a afinidade é um mito. Quando as semelhanças se contrapõem no cotidiano, o choque é inevitável. Não devemos acreditar nas origens, são enganosas, são estereótipos pinçados ao acaso por uma energia solta no espaço que talvez seja proveniente da fricção de corpos sem a menor compatibilidade e que se toleram mutuamente até o dia em que ocorre a ruptura.

É sob esse ponto de vista que é construído o texto Folhas de Vidro, de Philip Ridley, o mais novo expoente da dramaturgia britânica e considerado pela crítica especializada como um feroz renovador da arte do teatro.

Um dia, Tolstoi escreveu que todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira. Ridley é um outsider, não segue ninguém, é o exército de um homem só brandindo sua clava para despertar a consciência dos que ainda insistem em acreditar numa hereditariedade fraudulenta.

Mas há lirismo em seu texto, a morbidez alterna-se com a poesia amarga da vida. Pai, mãe e os dois filhos são objeto da demarcação de limites. A natureza de cada um recebeu seu quinhão e tenta a duras penas se livrar do destino e trilhar novas sendas, mas isso é impossível, eles estão travados, devidamente cristalizados no tempo e no espaço. O rito da purificação só pode ser feito pelo fogo. Ou pelo desterro. Ou pela expiação do sangue pelo sangue, como disse Sófocles.

Nessa família distópica, cada membro assume a sua culpa, reconhece perdas & danos, tenta se safar, mas há um carma que pesa duas toneladas e meia por cima da cabeça e todos se engalfinham segundo suas características. Os dois irmãos (interpretados por Alexandre Varella e Thiago Magalhães) vivem uma disputa desde que nasceram: o primeiro revelou-se um empresário de sucesso e o segundo pretende dar vazão às suas alucinações através das artes plásticas. A sombra do pai (que se suicidou com 35 anos) é uma treva eterna que os persegue, mas cada um cutuca a memória com insistência para que ela traga de volta alguma coisa boa, eventualmente amorosa.

A mãe (Carla Ribas, num momento excepcional de sua carreira) recebeu de mão beijada um papel que toda atriz almeja um dia interpretar: sua ambiguidade de sentimentos é ao mesmo tempo dramática e hilária; alterna-se entre grandes sacadas e o estereótipo social da maternidade, distribuindo (com o mesmo peso) fragilidade e integridade ao seu personagem, ora sóbrio, ora desvairado, e quase sempre dominando a situação de forma adequada e pragmática, mas não isenta de crítica. Faz o jogo de meio de campo, lançando bolas na diagonal para que os atacantes se desincumbam de suas tarefas de acordo com seu caráter e possibilidades psicológicas.

Fechando o elenco, uma surpreendente Cecília Hoeltz (esposa do filho que supostamente deu certo) dá seu show particular: é meiga, é violenta, é dúbia, ressente-se de ter entrado numa família estranha que flutua em limbos de hesitação e tenta manter sua gravidez a ferro & fogo, mesmo diante do marido que vacila, provavelmente em virtude do passado nebuloso que o envolve. Silenciosamente, ele questiona se o momento é adequado para que um rebento com essa carga hereditária habite nosso vale de lágrimas.

Esse passado é colocado com precisão cruel na trama: a memória não bate; as recordações dos dois irmãos fragmentam-se, se sobrepõem, contrapõem-se, estilhaçam-se em miríades estelares; ela é duvidosa, evasiva, provavelmente equivocada. O caso requer uma profunda meditação.

É justamente aí que entra a habilidade dos protagonistas Alexandre e Thiago: seus personagens se completam como se as duas partes da mesma fruta (recentemente cortada ao meio) tentassem se recompor ao delinear a personalidade de um hipotético ser humano único, pleno, íntegro, mas (como se percebe no andar da carruagem) isso também é impossível.

O duelo é encantador, pois, cada qual à sua maneira, objetiva restabelecer a verdade dos fatos, o obscuro passado de um grupo de pessoas que viveu instantes de sublime obsessão e que agora se vê órfão (literal e metaforicamente) de informações fidedignas, pois a memória etc.. etc..

A direção, dividida entre o próprio Varella e Michel Blois, consegue um equilíbrio de forças inusitado, tanto nos diálogos, quanto nos monólogos e na série espetacular de silêncios que entremeia a narrativa. Os movimentos são precisos, as falas são retrucadas na chincha, valendo-se de preciosos instantes de pausas cirúrgicas que só engrandecem o espetáculo.

A atuação dos dois atores é admirável: Varella faz um tipo reflexivo, mais cool; não contesta sem antes considerar todas as opções; analisa, contempla, absorve, mas não contemporiza, dá a impressão de que sabe exatamente como administrar a situação, mas é um engano, ele também tem dúvidas.

O personagem de Tiago é explosivo, veemente, sanguíneo, enfático, mas também é travesso, age na obliqua, sua loucura tem uma lucidez de arrepiar.

Nessa balada, ambos de contorcem, se apequenam, como se pretendessem inserir a bola no buraco quadrado daqueles joguinhos de plástico através dos quais ensinamos às crianças os limites do mundo.

Um time coeso & delirante, propenso a encarar as vicissitudes do teatro e da vida de peito aberto, sempre com vistas ao porvir. Encontrar um texto que contemple de maneira tão crua e ao mesmo tempo poética um reduto familiar insano é privilégio de poucos. Montá-la de forma tão exuberante e complexa beira a genialidade. Só através de obras-primas (e não de panfletos) conseguiremos enfrentar a estupidez que se alastra pela sociedade e fazer com que o ser humano medite com conhecimento de causa sobre o dilema da existência.

 

Folhas de Vidro está no Teatro Poeira, rua São João Batista, 104, Botafogo. De 3 de outubro a 3 de novembro. Quinta a sábado, 21h e domingo às 19h.