Ao passarmos por este momento tão delicado em que a Humanidade trocou o livro por um brinquedinho que antes servia para nos comunicarmos com o outro no meio do caminho entre o escritório e nossa casa, a atriz Cristina Mayrink resolve afrontar (com a cara e a coragem) esta realidade que humilha os mais aloprados autores de Science Fiction, fazendo com que suas distopias se pareçam com a mais ingênua das suposições.
Estamos num momento de decisão: ou lutamos para que a tecnologia trabalhe a nosso favor ou o mundo estará perdido.
Com direção de Cavi Borges e Patrícia Niedermeir, Marguerite, Mon Amour é um desesperado & inquieto pedido de socorro. Ao escolher o tema da escrita a partir da obra da escritora francesa Marguerite Duras, Cristina Mayrink ousa brincar com o destino que nos foi imposto pelo neoliberalismo autofágico e nos brinda com um espetáculo recheado dos mais profundos sentimentos, da dor, dos pensamentos, das perdas e da memória.
Mas vamos com calma, pois Duras é difícil e labiríntica e flertou com várias modalidades de arte. Foi escritora de livros, foi roteirista de cinema, foi ensaísta, dirigiu filmes, trabalhou no teatro como dramaturga. Como se isso não bastasse, engajou-se na Resistência Francesa na II Guerra Mundial, foi membro do Partido Comunista até 1950 e participou do movimento de maio de 1968.
Convenhamos, é currículo pra ninguém botar defeito. No cinema, estreou com o roteiro de Hiroshima, Meu Amor, película dirigida por Alain Resnais em 1959. Em seguida, tomou gosto e dirigiu mais 20 filmes, entre eles India Song, de 1975.
Este monólogo está centrado na produção da escrita e contempla todos os mistérios que a literatura possa abranger. Na Antiguidade, os gregos imaginavam que a arte era produzida através da inspiração das 9 musas; depois de Freud (como tudo depois de Freud), chegou-se à conclusão que o ato de escrever provinha do inconsciente e, por seu lado, os espíritas acreditam até hoje que não são os vivos que produzem a arte, mas os mortos, através de um estranho mecanismo que eles chamam de psicografia.
Marguerite Duras tinha outra tese: há um ser que está a nosso lado e age em paralelo, às vezes à nossa revelia, independente da nossa vontade. A escrita seria então produzida através de um furioso embate entre a razão e a emoção, naquela sutil fronteira entre a lucidez e a loucura.
Para ela, portanto, o resultado do que se escreve nada mais é do que um refluxo das mais íntimas, encruadas & lodosas crateras de um ser humano num estágio de torpor constante que o ilumina nos momentos da criação.
A interpretação de Cristina Mayrink (num inspirado bate bola com as sequências de filmes de Cavi Borges ao fundo) é apaixonada, não mede esforços para que os intricados raciocínios de Duras se solidifiquem à nossa frente como peças de um quebra-cabeça demencial.
É o amor à literatura que norteia esta peça e faz com que ela seja sublime na medida em que trabalha em surdina para que entremos num limbo mágico onde tudo é possível, desde os fatos mais corriqueiros do cotidiano até as iluminações da escritora, que vivia para isso: escrever.
De acordo com a intuição de cada um, é possível garimpar aqui & ali propostas, hipóteses, argumentos, centelhas, alentos, presságios, premonições, inspiração e estímulo. Estímulo para continuarmos a defender com unhas e dentes a arte de ler e que ela não caia no esquecimento jamais, pois o livro foi sem dúvida a melhor das invenções do homem.
Para Duras e Mayrink, a literatura destaca-se por ser livre o suficiente no sentido de escancaramos ao outro quem somos, o que queremos, o que nos ofende e nos apaixona, o que nos move neste vale de lágrimas a que estamos aprisionados desde que o mundo nasceu. Literatura é gênese e fim, mas é também o durante, como, aliás, a nossa própria sina, enclausurada entre o nascimento e a morte.
A diretora Patrícia Niedermeier foi hábil o suficiente para não deixar a peteca cair. Em parceria com Cavi Borges, que projeta os filmes no telão e pilota a iluminação do espetáculo, criou uma espécie de purgatório alheio ao tempo e espaço onde a atriz abre sua casa para receber os convidados e fazê-los sonhar diante da magnitude da escrita.
Nem todos os solilóquios são fáceis de entendimento, nem tudo fica claro num primeiro momento, mas é inegável que este curto monólogo nos prende do começo ao fim. É nesta simpática sala de estar que se inicia nossa odisseia da escrita para sabermos como ela surge, como se desenvolve, como pode terminar.
Os aficionados por Marguerite Duras não têm do que reclamar: este espetáculo a homenageia com profundidade e talento.
Marguerite, Mon Amour. Estação Botafogo. Sala 4. – Rua Voluntários da Pátria 88, Botafogo, Rio de Janeiro RJ. Tel. (21) 2226-1986.
De 5 a 27 de março – Quintas e sextas-feiras, às 20 horas. Ingressos R$ 40,00 (inteira) e R$ 20,00 (meia).
