O crítico se rende à própria ignorância

O crítico se rende à própria ignorância

MARACANÃ

Não é de hoje que os dramaturgos exigem das plateias uma atenção redobrada em relação aos textos. Isso vem de longe. Garimpar um fio condutor que consiga costurar vários episódios agrupados aleatoriamente num mesmo corpo não é tarefa fácil e tornou-se uma empreitada cada vez mais árdua a partir do momento em que os autores sentiram a necessidade de reunir fragmentos quase sem continuidade numa obra de teatro. Os links, portanto, ficam a critério da intuição, sensibilidade e inteligência do público.

Maracanã é um bom exemplo desse tipo de narrativa denominada provisoriamente de experiência alternativa na falta de melhor adjetivação. É um monólogo escrito e dirigido por Moacir Chaves, com figurino de Lídia Kosovski e interpretado por Ricardo Kosovski.

Muito bem. Vamos por partes, pois a tarefa do crítico também é delicada. A rigor, mesclar trechos do Macbeth, Romeu e Julieta (de Shakespeare) e O Jardim das Cerejeiras (de Tchekhov) com a queda do alambrado do estádio do Maracanã, a final do campeonato entre Flamengo e Grêmio e alguns pitacos filosóficos sobre o pó de onde viemos e o pó para onde vamos, insuflado pelo vento que determina quem vive e quem morre, a rigor não deve ser desprezada como metáforas válidas para uma reflexão salutar sobre o sentido da existência desde que haja uma espécie (mesmo que tímida, mesmo que tangencial) de interação entre eles.

É bem provável que o autor se sinta no direito de fazer o que bem entende e essa atitude é até certo ponto compreensível, pois a arte está num momento de reciclagem de signos e paradigmas, agregando novos conceitos, com o objetivo de desconstruir os parâmetros vigentes até então. É muito natural que um autor pretenda anarquizar os postulados que lhe parecem caducos para trilhar novas sendas e atalhos no intuito de modernizar o que lhe parece burocrático e mecânico no fazer dramatúrgico.

É justamente aí que entra a ignorância do crítico, pois é também salutar que ele empregue uma escala de valores de qualidade que lhe é mais íntima (ou conveniente), pois acredita que tudo que estudou não pode ser simplesmente atirado na sarjeta mais próxima. Ocorre, então, o embate mais tradicional: será realmente uma crueldade exigir uma coerência entre causa e efeito? A partir do instante em que o autor convoca as bruxas que profetizaram a ascensão de Macbeth ao trono através do assassinato do rei Duncan, devemos entender que a queda do alambrado do Maracanã tem alguma coisa a ver com isso? A simbologia me escapa. Haverá realmente uma relação sutil e subterrânea entre o monólogo retirado do Jardim de Tchekhov e a hipotética farsa do time do Grêmio em entregar o jogo contra o Flamengo, pois sua vitória iria beneficiar o Internacional, seu arquirrival? Um enigma a ser desvendado com o tempo.

Mas aí, senhoras & senhores, entra em campo (sem trocadilho) a exuberância do ator, confundindo conceitos e saberes, pois a interpretação de Ricardo Kosovski é tão redonda e convincente que todas essas situações absurdas e fragmentárias caem por terra, aniquilando a inverossimilhança e trazendo uma lufada de genialidade à trama. O que é o teatro! Uma arena de todos e de ninguém.

Truques, camuflagens, arquétipos, uma bem-aventurada viagem no tempo geográfico de um simples palco. A magia que só acontece num momento específico, na eternização de um instante que ficará cristalizado na nossa memória para sempre.

O personagem de Kosovski é uma fera, uma pantera enjaulada que gira em torno de si mesma em busca de saídas e eventuais respostas e outras prováveis indagações. Ele vai além do texto, transgride, rompe as paredes temáticas e técnicas, sobrepõe-se, caminha na horizontal, na vertical e na oblíqua, atropela, desobedece, corrompe, viola e profana, alicerça sem pudores um subtexto que nos ensina até onde pode ir um ator em sua ilimitada profundidade.

O final da peça Maracanã é genial: depois de se sentir encurralado no cenário simples e eficaz de Fernando Mello da Costa (seu último trabalho), o personagem percebe o limiar entre o dentro e o fora, entre o interior ficcional do teatro e a fuga para a realidade, como se um improvável e hipotético Abbadon, o anjo exterminador de Buñuel, viesse em seu auxílio para guiá-lo rumo à redenção.

Diante disso tudo, o crítico se rende e pede perdão por sua ignorância, pois simplesmente não consegue compreender o seguinte paradoxo: como que uma parte pode beneficiar o todo de forma tão brutal? Será um fenômeno de Física Quântica? Deveremos estudar a Teoria da Incerteza de Heisenberg a fundo? Estarão os liames de ato e consequência irremediavelmente minados por uma nova visão cósmica?

É bem possível que não possamos mais nos orientar (como diz Gil) pela constelação do Cruzeiro do Sul para seguirmos conceitos que se tornarão dogmas na semana que vem. É a vida.


Comentários

Uma resposta para “O crítico se rende à própria ignorância”

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